
Sem salas de aula, sem financiamento e movidos apenas pela solidariedade, três jovens angolanos percorrem as ruas de Luanda e Icolo e Bengo para alfabetizar crianças em situação de abandono, muitas delas acusadas de feitiçaria, expulsas de casa e forçadas a sobreviver entre pedonais e contentores de lixo.
Em vez de esperarem por políticas públicas, três jovens angolanos decidiram transformar passeios, pedonais e espaços improvisados em salas de aula para crianças que vivem nas ruas. Com quadros às costas, cadernos comprados do próprio bolso e a convicção de que “ainda há esperança”, o grupo, conhecido como “Professores das Ruas”, percorre bairros de Luanda e Icolo e Bengo para alfabetizar menores fora do sistema de ensino.
O projecto nasceu há cerca de três anos, no bairro Cajinji, município do Sequele, província de Icolo e Bengo, por iniciativa de Eduardo Paulo Catenda, jovem de 28 anos que, por falta de condições financeiras, interrompeu os estudos no segundo ano do curso de Telecomunicações, na Universidade Agostinho Neto. Inicialmente sozinho, começou a ensinar gratuitamente crianças cujos pais não tinham condições financeiras para matriculá-las numa escola.
Mais tarde, juntaram-se ao projecto Milton Carlos Manuel, de 22 anos, e Eurico Vilar, formados no ensino médio em Ciências Físicas e Biológicas. Unidos pelo mesmo sentimento de responsabilidade social, os três decidiram expandir o alcance da iniciativa.
“Vimos muitas famílias sem condições e muitas crianças sem qualquer oportunidade de estudar. Então, decidimos abraçar esta causa”, contam os jovens professores.


Depois de algum tempo a leccionarem apenas no bairro Cajinji, os jovens concluíram que o problema ultrapassava os limites daquela comunidade. Resolveram, então, ir ao encontro das crianças em situação de rua, levando o ensino directamente aos locais onde elas sobrevivem diariamente.
Há cerca de dois anos, os três percorrem diferentes zonas de Luanda e Icolo e Bengo, dando aulas em espaços improvisados. As lições acontecem debaixo de pedonais, nas margens das estradas, junto de obras abandonadas e em áreas periféricas onde dezenas de menores passam os dias e as noites.
“Não temos uma sala fixa. Nós é que vamos ao encontro deles. Procuramos os locais onde ficam reunidos e ali damos as aulas”, explicam.
Actualmente, o projecto funciona em zonas como Viana, especificamente nas imediações da Casa da Juventude, na Centralidade do Sequele, em Cacuaco, nos Congolenses e no 1.º de Maio, locais identificados pelos jovens como pontos de concentração de crianças em situação de abandono.
Sem apoio institucional, os Professores das Ruas sustentam grande parte das actividades com recursos próprios. O pouco dinheiro que conseguem é utilizado para comprar cadernos, lápis, marcadores, lapiseiras e até água ou comida para os estudantes.
“Às vezes, tiramos dinheiro do nosso bolso para comprar materiais didácticos e até alguma comida ou água, para as crianças não saírem da aula com fome”, relatam.
Apesar das dificuldades financeiras, garantem que as aulas continuam a decorrer regularmente. Em alguns casos, contam com pequenos gestos solidários de cidadãos que passam pelos locais e oferecem materiais escolares.
“Algumas pessoas ajudam-nos com cadernos e lápis, e isso motiva-nos muito”, afirmam.
Embora o objectivo principal seja a alfabetização, os jovens explicam que o projecto pretende resgatar sonhos e devolver esperança a crianças que cresceram sem qualquer protecção social. A faixa etária dos alunos varia entre os 12 e os 18 anos. Vivem em condições extremamente precárias. A maioria dorme debaixo de pedonais, em edifícios abandonados ou noutros espaços improvisados nas ruas.


“Muitos deles já perderam os sonhos. Já não têm esperança. O nosso objectivo é mostrar-lhes que nada ainda está perdido”, dizem.
Durante as conversas com os menores, os professores ouviram relatos marcantes. Algumas crianças afirmam ter sido expulsas de casa pelos próprios pais, outras dizem ter sido acusadas de feitiçaria. Há ainda casos de menores que vão às ruas procurar comida para ajudar as mães e acabam por permanecer dias fora de casa.
Para sobreviver, muitos engraxam sapatos, lavam carros ou recolhem latas e bidões nos contentores de lixo. Mesmo diante dessa realidade, os jovens garantem que os estudantes demonstram enorme vontade de aprender.
“Quando nos vêem, ficam felizes. Às vezes, eles próprios procuram um lugar com sombra para se sentarem e assistirem às aulas”, relatam.
Sem salas, sem carteiras e sem qualquer estrutura formal, as aulas acontecem em condições adversas. O som constante dos carros, o movimento das ruas e o calor intenso fazem parte da rotina dos professores e alunos. Ainda assim, os jovens asseguram que muitas crianças têm evoluído rapidamente na aprendizagem.


“Há crianças muito inteligentes. Adaptaram-se rapidamente e estão a aprender satisfatoriamente, apesar dos barulhos e das dificuldades”, explicam.
O número de participantes varia diariamente. Ora aparecem cinco alunos; noutras ocasiões, chegam a reunir vinte crianças. Para conseguirem atender mais estudantes, os três professores dividem-se pelos diferentes pontos da cidade, utilizando os três quadros que possuem.
“Não ficamos todos no mesmo local. Cada um vai para uma zona diferente para alcançarmos mais crianças”, dizem.
Apesar de reconhecerem o papel do Estado, os responsáveis pelo projecto defendem que os cidadãos também devem assumir responsabilidades sociais diante da crise que afecta milhares de menores angolanos.
“Nós somos jovens e cidadãos angolanos. Entendemos que não podemos esperar que o governo faça tudo. Onde o governo não está, nós estamos lá para dar uma mão”, sublinham.
O grupo apela ao envolvimento de dirigentes, directores de escolas, lares de acolhimento e cidadãos em geral, para que olhem com maior atenção para as crianças em situação de rua.
“O nosso desejo é que mais pessoas se juntem a esta causa para apoiar estes meninos e também o projecto Professores das Ruas”, apelam.
Sem esconder o cansaço e as limitações financeiras, os três jovens garantem que não pretendem desistir.
“Nós queremos continuar. Precisamos apenas de apoio com materiais didácticos para ajudar estas crianças”, concluem.






