Luísa Carvalho: “Iniciar a profissão de professor, nos dias que correm, é mais temerário, difícil e desafiador”

Onélio SantiagoEntrevistaFevereiro 28, 2025

Reformada há 10 anos, Luísa Carvalho viu o RECURSO interromper-lhe o ‘honroso descanso’ com uma entrevista, nas suas próprias palavras, ora temerária, ora provocatória. As memórias dos primeiros anos como professora em Portugal, a importância da literatura para compreensão dos problemas que o mundo hoje vive e a experiência “positiva” como docente em Angola, onde, em todo o caso, assistiu “ao maior desperdício de dinheiros públicos”, preenchem a longa conversa com uma académica que assume: “Nunca conceberei a ideia de que qualquer inteligência artificial possa substituir as línguas naturais.”

“Um professor afecta a eternidade; nunca se pode saber onde a sua influência termina.” Com a sua experiência de mais de 40 anos como professora, que comentário faz sobre esta frase atribuída a Henry Adams?

Começamos mal, porque nunca li a Education of Henry James, que postumamente lhe valeu um prémio Pulitzer (1909). Mas, pelo que me foi dado a investigar, este aristocrata, cuja vida decorreu entre 1838-1918, neto de dois presidentes norte-americanos, jornalista, professor, secretário do seu pai, destacado em missão diplomática em Londres, que percorreu o mundo, dos EUA à Grã-Bretanha, de Berlim ao Japão, de Cuba à Austrália, que frequentou as Universidades de Harvard e de Berlim, não é, de todo, um professor comum em cujas sentenças nos possamos rever sem alguns cuidados. A noção de contexto é, aqui, pertinente e esclarecedora. Aliás, retive como particularmente definidora da sua concepção de vida uma frase que escreveu numa carta enviada a uma sobrinha, em 1902, quando se tornou possuidor de um Mercedes-Benz. Escreveu ele que a sua ideia de paraíso [na Terra] era «um automóvel perfeito rodando a cinquenta quilómetros por hora numa estrada macia em direcção a uma catedral do século XII». Que professor não desejaria ensinar em escolas «perfeitas», a um ritmo tranquilo, ensinando os seus alunos como se deslizassem em «estrada macia» e na expectativa de chegar à ‘catedral’ do Conhecimento – exemplo de beleza, tranquilidade e perfeição? Sabemos que, nesse longínquo tempo (séc. XIX-XX) e naquele contexto social, ser professor era uma condição altamente prestigiada, reservada a muito poucos e a influência nos alunos, também em número reduzido e oriundos, quase todos, das elites americanas, seria particularmente marcante. Mas esqueçamos o Senhor Henry James e pensemos nos professores de hoje, obrigados a um ritmo de trabalho aceleradíssimo, com turmas sobrelotadas de crianças de todas as origens familiares, em escolas mal apetrechadas e desconfortáveis, e com professores que não tiveram o privilégio de conhecer o mundo antes de exercerem a sua profissão. Cada qual com os seus humores, os seus feitios, a sua linguagem própria, as suas dificuldades, os seus sonhos. E sim, acredito que, em qualquer momento, os olhares se cruzam, os sorrisos se trocam, a explicação abre mundos invisíveis e o que parecia difícil de entender fica fácil, limpo e transparente – e a imagem do professor pode perdurar pela vida fora. Da mesma maneira que, na memória do professor, ao fim de quarenta anos, há rostos de meninas e meninos, de jovens brancos, negros e asiáticos (estive um semestre numa Universidade do Sul da China) que ficaram gravados e amiúde se recordam. O gesto inesperado, a pergunta acertada, a resposta bonita, o preguiçoso, o sempre atrasado, o perguntador incómodo, o engraçadinho, o desconfiado, o envergonhado. Há de tudo na memória de um professor. Mas na cabeça dos alunos, o que ficou de cada professor? Só eles saberão.

Como entrou para esta profissão e por que razão permaneceu nela todos estes anos?

Sou filha de um professor de liceu, que muito penou para chegar a essa condição. E no tempo em que tive de escolher entre Letras ou Ciências, a minha   escolha estava feita — Letras. Como o meu pai era professor de Inglês e Alemão, e o meu irmão mais velho já optara pela Filologia Germânica, eu optei pelo Francês e Português (Filologia Românica). Mas o meu futuro de professora estava decidido, na minha cabeça. Tudo isto pelos anos sessenta do século XX: Salazar, pobreza, atraso, analfabetismo, isolamento, início da guerra colonial — e eu tinha três irmãos em idade de serem chamados. Nessa época, quem conseguisse fazer um curso superior tinha o futuro garantido. Havia falta de gente qualificada em todas as profissões e também na classe dos professores. No início dos anos setenta, a reforma do ensino que ficou conhecida pelo nome do ministro Veiga Simão, abria centenas de vagas em todo o país [Portugal]. Eu tinha concluído o 3.º ano do curso na Faculdade de Letras de Lisboa e pude concorrer como ‘bacharel’, tinha apenas 20 anos. E apesar de sermos muito mal tratados pelo Estado, que só pagava os meses em que dávamos aulas, não mais deixei de tentar a minha sorte, dando aulas e fazendo as cinco cadeiras extra curso que se chamavam ao tempo ‘Pedagógicas’ e que nos permitiam alguma segurança em termos de profissão. Entretanto, chegou o glorioso 25 de Abril, que abriu portas a mil e uma mudanças de todas as nossas vidas. Casei, concluí o curso, já não em Lisboa, mas em Coimbra, onde residi durante mais de uma década e onde nasceram e cresceram os meus dois filhos. Mas o mais significativo foi que, com a abertura do país à Europa e ao Mundo, foi tal a avalanche de livros, teorias e autores que queríamos conhecer, que nunca mais parei de estudar e de acompanhar, na medida do possível, a evolução das novíssimas Ciências da Linguagem, das várias teorias da Linguística europeia e americana à crítica literária de diversa inspiração. Pelos anos oitenta, o governo decidiu a abertura dos institutos politécnicos em todas as cidades capitais de distrito, o que foi acompanhado da abertura de mestrados, nas universidades, para formação especializada do corpo docente das novas instituições. E como estava em Coimbra, com a Universidade à porta de casa, candidatei-me a um curso de mestrado em Literatura Portuguesa que me abriu a possibilidade de concorrer, anos mais tarde, para a Escola Superior de Educação de Bragança, cidade onde eu tinha nascido e crescido e onde viviam ainda os meus pais. E aí iniciei a segunda fase da minha vida profissional, enquanto professora do ensino superior politécnico. Foi ainda nessa qualidade que me aconteceu ir para Luanda, ao abrigo de um protocolo com o Instituto Camões. Foram três anos de uma experiência única e extremamente rica que terminaria em 2015, por força da minha passagem à reforma. Há exactamente dez anos.

Tendo iniciado carreira num período em que a influência da tecnologia era praticamente nula no processo de ensino-aprendizagem e o professor ‘detinha o monopólio do conhecimento’ sobre os novos temas a serem abordados na turma, como olha para a realidade actual, em que, ao chegar à sala de aulas, o professor se depara com alunos que já têm a matéria toda explicada na internet e sob diversas perspectivas?

Não entendo o que queira dizer com a expressão “têm a matéria toda explicada na internet …”. Antes da internet, também todas as matérias estavam ‘explicadas’ nos muitos livros escolares, e não só, que havia ao dispor das pessoas. Daí ter havido sempre muitos autodidactas e tantos outros que dispensavam professores e que por si sós se propunham a exames que validavam os seus conhecimentos.  O que mudou, e muito, foi com certeza o número crescente de crianças com acesso à escola e a facilidade com que cada aluno pode ter o seu telemóvel pessoal. O que deveria ser uma tremenda vantagem: como se cada aluno pudesse trazer na mão toda uma biblioteca que ele tem de aprender a usar da melhor maneira! Caberá aos professores, e em primeiro lugar aos formadores de professores, ‘inventar’ uma pedagogia nova que aproveite estes novos instrumentos de aprendizagem para facilitar o trabalho, quer dos próprios, quer dos alunos. Creio que é uma tarefa árdua, mas desafiante e urgente.

Nunca conceberei a ideia de que qualquer inteligência artificial possa substituir as línguas naturais. As diversas entoações e expressões de humor, de bondade ou de raiva, de júbilo ou de tristeza, de amor e de paixão, em que as línguas naturais são riquíssimas, nunca poderão ser reduzidas a um jogo de algoritmos.

Se estivesse obrigada a escolher entre um período ou outro (com internet ou sem) para se iniciar como professora, que época escolheria? Porquê?

Há circunstâncias da vida que não se coadunam com escolhas. Onde e quando nascemos são circunstâncias que nos definirão para toda a vida e sobre as quais não temos qualquer autoridade. Pertenço a uma geração que nasceu numa sociedade de recorte quase medieval, num regime de ditadura e que, como sabemos, foi evoluindo à sombra de uma herança cultural reconhecida e integrada na dita cultura europeia e ocidental. Tínhamos raízes, limites e princípios estabelecidos que suportavam e orientavam a segurança das nossas opções. Não saberia escolher outra profissão que não esta, de professora. Mas reconheço que iniciar a profissão de professor, nos dias que correm, é mais temerário, mais difícil e mais desafiador, pelo facto de que todo o mundo é hoje muito mais complexo, está a sofrer desequilíbrios e desenraizamentos culturais e sociais que desafiam e colocam em causa toda a noção de segurança e de estabilidade. Agravada ainda pelas chamadas redes sociais que progressivamente se vão transformando num poderoso factor de instabilidade, se não forem devidamente ‘domesticadas’.

Já voltaremos à influência da internet no ensino. Mas falemos de Angola, onde chegou a leccionar em duas instituições do ensino superior (ISCEDs Luanda e Cabinda). O que diria a um amigo português que lhe perguntasse sobre a qualidade de ensino no País? 

Diria, com certeza, que a qualidade de ensino de um país, seja ele qual for, não pode ser medida por um qualquer professor-visitante ao fim de dois ou três anos. Tanto mais num país como Angola, onde, apesar da minha quase total ignorância sobre a sua cultura e história, eu sabia haver enormes diferenças inter-regionais. Luanda era a grande capital onde tudo se definia. E onde proliferavam, já nessa altura, universidades e institutos públicos e privados de toda natureza e inspiração, em que o ISCED era apenas uma pequena instituição pública dedicada à formação de futuros professores. O ISCED que me acolheu era uma concentração de pré-fabricados (ou contentores), construídos à sombra de um edifício que tinha sido um prestigiado Liceu e que estava completamente abandonado.  Como leitora do Instituto Camões (IC), teria a meu cargo a gestão do Centro de Língua portuguesa (CLP). O meu maior espanto — e desencanto — foi saber que o CLP estava metido em caixotes numas salas algures emprestadas para esse fim. Devo lembrar o papel do então director do ISCED, que se empenhou em fazer acrescentar um novo contentor ao conjunto já existente para instalar a biblioteca que jazia encaixotada e albergar um CLP mais visível e, sobretudo, mais útil para os alunos de Língua e Literatura portuguesas. Essa construção demorou cerca de um ano. Entretanto, do contacto com as turmas que me foram atribuídas, pude perceber que os comportamentos colectivos dos alunos são basicamente os mesmos em toda a parte, mas que, naturalmente, cada aluno é uma realidade especial. A esta distância sou ainda capaz de lembrar alguns alunos e alunas que se destacavam pelas suas maneiras educadas, pela sua curiosidade intelectual ou mesmo por certa rebeldia ou indiferença em relação às matérias leccionadas. Mas gosto de saber que, ao fim destes dez anos, alguns desses alunos são hoje insignes académicos, com mestrados e doutoramentos concluídos com êxito e que gozam de enorme prestígio entre os seus pares. Quanto ao corpo docente de então, o que eu fui percebendo, ao longo dos meses, foi que havia um corpo de académicos prestigiados que, devido ao seu pequeno número, se desmultiplicava, acumulando horários em duas, três e mais instituições, públicas e privadas. Com todas as consequências conhecidas.  Eu poderia dizer ao meu suposto amigo, como na verdade terei dito, que era uma realidade bem diversa da nossa, com as suas idiossincrasias próprias e um sistema ainda em construção. É o que posso dizer a este propósito.

Tendo leccionado por várias décadas no ensino português, qual é para si a grande diferença entre ser docente em Portugal e em Angola?

É uma questão temerária e provocatória ao mesmo tempo. A história e a estabilidade do sistema de ensino português não podem comparar-se, apesar de tudo, com o sistema de ensino angolano que, enquanto sistema público nacional, não cheguei sequer a perceber na sua totalidade. Mas apercebi-me de influências religiosas diversas na sua constituição e funcionamento, sobretudo no vasto território fora da capital. Quanto à condição dos docentes, aliás de enorme dedicação à causa da educação, conheci mais e menos abastados, com responsabilidades familiares maiores e menores, cabendo aos mais numerosos professores das primeiras idades e mais dispersos geograficamente a condição mais difícil, em termos sociais e financeiros. Era, aliás, esta dificuldade de sobrevivência quotidiana que levava muitos deles a acumular horários e funções, com enorme sacrifício da maior parte deles. Tudo associado à enorme, enorme dificuldade que era circular de um lado para o outro, dentro da cidade de Luanda.  Sabia de colegas que saíam de casa pelas quatro horas da manhã para poderem assegurar um lugar de estacionamento junto das escolas em que iniciavam o seu dia de trabalho. Descansavam naquele intervalo matinal. Em Portugal, houve e haverá sempre casos de professores deslocados das suas residências, dificuldades que se arrastam de ano para ano, mas há um outro nível de conforto, de segurança e de previsibilidade que não conheci em Luanda. Mas havia lá, na altura, mordomias financeiras, e não só, que em Portugal ninguém ousaria pensar: os chefes de departamento tinham direito a carro do estado, supostamente só enquanto desempenhavam a função, mas que acabavam sempre por conservar; e havia um qualquer critério ‘secreto’ que atribuía a certos professores nada mais nada menos do que um apartamento nas novas áreas habitacionais da cidade. Eu própria fui instalada num apartamento do director do ISCED a quem o IC pagava renda mensal.

E Luanda e Cabinda? Chegou a encontrar diferenças entre ser professora nos ISCEDs de cada uma dessas províncias?

No ISCED de Luanda, apesar das precárias condições físicas a que já me referi, tive a oportunidade e o gosto de colaborar numa profunda revisão do currículo do curso de Língua e Literatura portuguesas (LLP) e na redacção do primeiro plano de mestrado em LLP, que iniciou o seu funcionamento no ano seguinte (2014). Foi também nessa altura que a Direcção do ISCED decidiu a sua mudança física para a nova cidade [Centralidade] do Kilamba, a alguns Km de Luanda.  Quando a mudança se fez, eu estava em Portugal, celebrando a memória do meu Pai que completaria 100 anos nesse mês de Fevereiro (2014). E, para minha surpresa, quando regressei, fui instalada, com as mesmas condições contratuais, num apartamento pertença do mesmo director do ISCED. O Kilamba era uma das maravilhas da espantosa capacidade chinesa:  toda uma cidade de amplas avenidas e bairros devidamente diferenciados, parques infantis, limpa e airosa como a cidade de Luanda não sabia ser há décadas. E o   ISCED era um conjunto edificado de amplas dimensões, que oferecia condições óptimas para o crescimento da instituição que, pela primeira vez, oferecia cursos de mestrado e podia organizar uma biblioteca bem organizada e bem recheada. Era grande o entusiasmo de todos, que pareciam até respirar melhor, naquele vasto conjunto de salas e de gabinetes. Assisti, então, a um verdadeiro espectáculo de ostentação e ao maior desperdício de dinheiros públicos a que pude assistir: mobílias de madeiras nobres para todos os gabinetes, especiais para as chefias, tapetes decorativos, candelabros de cristal, decorações à medida do estatuto de cada um, carros novos para todos os chefes de departamento e um grande parque que se foi enchendo de automóveis de aluguer geridos discretamente por alguém. Neste afã se passaram os restantes meses daquele ano de 2014, tendo eu a meu cargo uma boa mão cheia de aulas do mestrado que ajudara a criar. E com a promessa de ser remunerada na mesma medida dos restantes professores doutorados, o que, na verdade, não chegou a acontecer. Entretanto, eu pedira a reforma, em Portugal, e o IC punha fim ao meu contrato. A direcção do ISCED recusou a minha contratação individual e não hesitaram em quebrar o vínculo científico contratado com os alunos, com escolhas já feitas sobre temas das teses finais dos seus mestrados. Mas o ISCED de Cabinda tinha manifestado interesse na minha colaboração, pelo que, em Março de 2015, fui de armas e bagagens para Cabinda, com um contrato firmado verbalmente e confirmado por e-mail. E aí as coisas mudaram substancialmente. Ao contrário do prometido, não havia instalações disponíveis. Estive uma semana num hotel à espera de sítio para me instalar e vim a descobrir depois que estava exactamente a vinte passos do ‘condomínio fechado’ onde eram acolhidos os professores estrangeiros, na sua maioria cubanos. Mas o edifício do ISCED de Cabinda era longe, numa outra ponta da cidade, a que se chegava através de estradas velhas e esburacadas, transportados num jipe com condutor, e a horas que permitissem a todos os professores cumprir os seus horários de trabalho e o regresso ao fim do dia. O edifício era muito parco em comodidades, uma só salinha para todos os professores do departamento, uma biblioteca muito pobre, quase exclusivamente preenchida por sebentas e manuais de apoio aos docentes. Mas fora estes constrangimentos, começou a acontecer que o chofer não aparecia por falta de verba para pagar a gasolina. E os professores tinham que faltar nesse dia. Aconteceu várias vezes. Eu tinha horário diurno e nocturno e um contrato ainda por assinar.  Rapidamente percebi as debilidades administrativas da instituição, assim como as diferenças dos alunos de um e outro ISCED e, sobretudo, dos alunos diurnos para os nocturnos. Mas fomos trabalhando com o máximo de ânimo de que eramos capazes. E tive óptimos alunos nas disciplinas que leccionava, da literatura portuguesa. Mas a nota mais negativa que guardo destes quatro meses que passei em Cabinda foi o espectáculo que se proporcionava nos dias de provas de avaliação, em que as salas, suficientes para os alunos regulares, transbordavam de gente, com as carteiras encostadas umas às outras, o professor literalmente encostado à parede, de pé, e os alunos, ilustres desconhecidos, viciados e treinados no copianço sistemático. E mais não digo sobre as tristíssimas condições em que terminou esta minha aventura. Era o mês de Junho de 2015.  

Em Angola, em certos círculos, a profissão de professor é associada à pobreza ou uma grande carência material. Até se fazem piadas sobre a alegada dificuldade para um docente ‘mimar’ a si próprio com um hamburger, por exemplo. É algo que devia preocupar a sociedade?

A educação é um dever dos Estados modernos e democraticamente organizados, como julgo ser o caso de Angola. Não devo pronunciar-me sobre questões de política interna, ainda que educativa, mas lamento muito que seja essa a situação dos últimos anos. É com certeza uma realidade social preocupante que, imagino eu, não atinge só os professores que são uma parcela da vasta rede dos trabalhadores do Estado.  Mas sempre deixarei aqui expresso o meu desejo de que a educação da juventude angolana seja um item prioritário nas preocupações do País, única maneira de assegurar o direito de todas as crianças a ir à escola, de as educar e desenvolver as suas naturais capacidades físicas e intelectuais que contribuam para o desenvolvimento futuro do País. Tenho como amigos nas redes sociais alguns ex-alunos do ISCED de Luanda, que me deram o prazer de continuar a partilhar comigo as suas vidas, que fizeram, entretanto, mestrados e doutoramentos, publicam livros de Poesia e /ou ficção, produzem música popular, o que deve encher de orgulho a sociedade angolana. E que merecem ser devidamente recompensados do seu esforço e da sua capacidade de trabalho. Mas as tabelas salariais são o que são e cada país sabe de si, não é assim?

Podemos assumir que, em termos institucionais ou de políticas, Portugal está melhor do que Angola no que toca à valorização do professor?

Mais uma pergunta temerária, a que não saberia responder sem criar falsas ideias ou sugerir intenções que não tenho, de todo. Mas basta pensarmos na História de cada um destes países (e na sua História comum) para percebermos que não será legítimo estabelecer comparações deste tipo.

Em Angola, do ensino geral ao superior, há cada vez mais estudantes com dificuldades para desenvolver o gosto pela leitura. O Governo criou, por isso, em 2018, uma mega-comissão para Política do Livro e da Leitura, mas este órgão encerrou um primeiro mandato de cinco anos sem qualquer actividade. Depositando esperanças nos professores, pergunto-lhe: o hábito de leitura ganha-se em casa ou na escola?

O hábito de leitura pode ganhar-se em qualquer lado, o importante é que se ganhe. Há mil depoimentos de gente comum, em todo o mundo, que deve o seu gosto de ler aos catecismos da(s) igreja(s), a revistas deixadas ao acaso que se recolhiam do lixo, às bibliotecas itinerantes que iam, de lugar em lugar, deixar livros para mais tarde recolherem e redistribuírem e há os felizardos que, dentro das suas próprias casas, souberam sempre da existência e da importância dos livros. Viram os seus pais lerem regularmente, com prazer, ouviram ler-lhes em voz alta histórias interessantes, souberam sempre que nos livros está depositado todo o saber que importa na formação de cada um. Mas a escola pública deve apagar estas diferenças e dar a todos as mesmas oportunidades de adquirir o hábito e o gosto da leitura. Teorizando um pouco mais, temos de ter em mente que os Estados, ao desenharem um determinado currículo da língua nacional, têm em conta o nível de analfabetismo da sua população que se pretende combater e a melhor forma de controlar a participação dos cidadãos na vida da comunidade nacional. E isso sempre se fez através da Escola, a instituição a que tem cabido fazer a distribuição controlada desta oportunidade de leitura e de escrita, da dose certa de capacidade de ler e de escrever, feita através dos vários níveis de escolarização e dos respectivos conteúdos linguísticos e literários. Uma mega-comissão criada pelo Governo para desenvolver o gosto pela leitura só poderá ter algum êxito se puder intervir directamente na definição dos programas de ensino da Língua e da Literatura nacionais. E para tal, deverá ouvir os seus professores sobre a sua experiência no terreno, dar-lhes a oportunidade de expressarem as suas aspirações e necessidades e exigirem do Governo as condições materiais para levarem a cabo a sua tarefa. Oxalá o consiga!

Considerando que muitos estudos sobre as profissões de futuro excluem as áreas das letras/humanidades, podemos assumir que é chegada a hora de aconselhar os jovens universitários a repensar o desejo de obter um doutoramento em Literaturas?

Há dez anos que deixei de acompanhar a evolução dos estudos teóricos em torno da Literatura. E por necessidade de tratamento oncológico, estou há quatro anos deslocada da minha casa e da minha biblioteca pessoal, onde encontraria algumas boas respostas a esta vossa questão. Mas com a sabedoria dos anos vividos e alguma memória que ainda conservo, direi somente que a escolha de uma profissão de futuro, num país como Angola, deveria ser uma tarefa relativamente simples desde que estivessem estabelecidas as grandes opções estatais para o futuro colectivo. Penso que deve haver no país candidatos suficientes para as grandes áreas de actividade e que a escolha livre deveria estar ao alcance de todos. Mas lembro aqui o conceito muito pertinente, proposto pelo autor americano John Guillory, de que a literatura é um verdadeiro “capital cultural”, importante sobretudo pela sua forma linguística. É que o domínio da língua não está, em país nenhum, igualmente distribuído. À estratificação social corresponde a diferenciação linguística entre os falantes da língua. E esta diferenciação acompanha as diversas mutações sociais, ao longo dos tempos, que alimentam a luta pelos recursos da língua. “A sistemática regulação da leitura e da escrita pertence, com efeito, ao projecto da reprodução social”, escreveu Guillory. E acrescenta ainda que “os autores se confrontam com uma monumental tradição textual já imersos, enquanto falantes e escritores, na condição social da estratificação linguística, que trai, a todos os níveis, a luta entre grupos sociais pelos recursos da língua, pelo capital cultural na sua forma linguística.” Um enorme campo de batalha a precisar de guerreiros corajosos, como alguns que conhecemos e que fizeram os seus mestrados e doutoramentos com excelentes resultados e que, espero, o país saiba recompensar e aproveitar, para bem de toda a comunidade, académica e nacional.

Qual é relevância da literatura para os problemas que o mundo hoje vive?

Hoje o mundo é um lugar muito mal frequentado e muito mal governado, onde reina a instabilidade e a crueldade dos ricos sobre os pobres. A frase vale o que vale, mas quem leu, ou possa ler agora, Homero ou Aristóteles, Virgílio ou Petrarca, Dante, Camões, Cervantes…ou Saramago, Pepetela e Ondjaki sabe relativizar os males do mundo em que vivemos, porque todos os grandes autores escreveram sobre a indiferença dos grandes que desgovernaram o mundo à sua maneira, no tempo em que viveram.  É na Literatura de todos os tempos que encontramos as melhores lições de humanidade, mas também os desmandos dos mais cruéis de entre os poderosos. Todos os defeitos e todas as virtudes de que o Homem é capaz têm sido objecto de criações maravilhosas que os séculos preservaram, para nosso gozo, deleite e aprendizagem. Porque escreveram, e bem, porque, em forma de Livros, puderam ser apreciados, estimados e conservados. E os novos autores continuam buscando e criando histórias possíveis que só o homem é capaz de inventar, alimentar e desfrutar. Agora os livros estão fora de moda? A internet vai substituir tudo? Não acredito. A memória da Humanidade está depositada nos Livros e as novas tecnologias só poderão ser indesejáveis se não as soubermos  controlar. E voltando às questões anteriores, foi nos livros e na arte de escrever que se concretizou a evolução das línguas, a sua clarificação sintáctica, a sua riqueza lexical, a novidade e surpresa de certas figuras, e algo parecido com o ideal de beleza que herdámos dos clássicos e que, em séculos sucessivos, foi sendo questionado e actualizado.  O domínio das capacidades linguísticas e de interpretação de textos é, de tempos a tempos, apontado nos observatórios internacionais como um dos skills fundamentais para múltiplos empregos aparentemente maquinais. Lembro-me vagamente de ter falado deste tópico numa comunicação que fiz num congresso organizado no ISCED de Luanda, em 2014.

Voltando à influência da internet na escola, e não querendo forçar-lhe a uma resposta maniqueísta, pergunto: a inteligência artificial é um perigo ou uma aliada do professor? Porquê?

Como especialista de língua e de literatura, nunca conceberei a ideia de que qualquer inteligência artificial possa substituir as línguas naturais. As diversas entoações e expressões de humor, de bondade ou de raiva, de júbilo ou de tristeza, de amor e de paixão, em que as línguas naturais são riquíssimas, nunca poderão ser reduzidas a um jogo de algoritmos. Mas direi que, tal como vos disse sobre a internet, poderá vir a ser uma aliada dos professores desde que a sua inteligência – dos professores – suplante a das máquinas. E para isso é preciso ler, ler muito e os melhores autores, aprimorar as capacidades de linguagem e de interpretação e não deixar que sejamos dominados pela máquina infernal que ameaça o mundo.

Imaginemos que tivesse o poder de decretar uma decisão com impacto mundial sobre a educação e o ensino, o que determinaria? Porquê?

Paz e pão para todos. Escolas e professores para todas as crianças do mundo, apetrechadas com boas bibliotecas em que estivessem representados os grandes clássicos universais e os criadores das suas línguas respectivas. Livros, CD’s , vídeos, internet.  E muito Amor e respeito.

Pelo que sabe hoje e pelo que viveu ao longo dos mais de quarenta anos como professora, se recuasse no tempo, escolheria novamente esta profissão?

“… e chegou aquela madrugada inteira e limpa… e à luz daquela madrugada e de muitas outras que veríamos nascer, nada ficou como era… o mundo cresceu de repente… as ideias multiplicaram-se a um ritmo estonteante… e a escola passou a ser o centro do meu mundo mental…reformas, reformas todos os anos, todos os meses, todos os dias, por favor… nada do que nos tinham ensinado tinha razão de ser: a África, afinal, não era nossa, os bem instalados africanistas regressavam de orelha murcha e de mãos a abanar… enfim, … nada do que nos tinham ensinado servia para coisa nenhuma…o futuro que aí vinha não precisava desses ensinamentos inúteis…para aprender português não precisávamos de cópias, de ditados sem erros ortográficos, de poemas ditos de cor…o futuro precisava de palavras novas, de ideias inovadoras, de atrevimento, de rasgo imaginativo… de muito trabalho… manifestem-se, exprimam-se, deitem cá para fora o que têm nas vossas cabeças… isso é que vale, queridos alunos… falem, sugiram, dêem opiniões e juntos iremos ao futuro que vamos construir…E assim se foram passando duas décadas…Vinte anos mais tarde, a ânsia de novidade deixara os professores exaustos: tínhamos lido à pressa os formalistas e os estruturalistas, os teorizadores da linguagem e da literatura, tudo ao mesmo tempo, Saussure, Jakobson, Chomsky, com sua coorte de seguidores e de contra proponentes… terminologias contra terminologias, discussões acesas em reuniões sem fim… e reformas sucessivas e novos programas para amanhã contra os novos programas de ontem, ainda mal digeridos… e liamos, pelo meio, Marx, Sartre, Bachelard, Freud, Foucault e Ricoeur…meu Deus…o que nós lemos, o que discutimos, o que fomos percebendo lentamente.»
Isto escrevi eu, há já uns bons anos. Desilusões, muitas. Experiências, bastantes, de que a experiência angolana se destaca pela positiva. Conservo desses anos as boas memórias e alguns bons amigos. A quem mando um grande abraço e um desafio final: Haverá profissão mais estimulante do que a de professor?

Perfil

Luísa Carvalho é natural de Bragança, onde nasceu em 1951. Fez a formação superior na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, já casada, na de Coimbra, onde exerceu a profissão de professora, na Escola Secundária José Falcão. Paralelamente, frequentou o curso de mestrado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, na Faculdade de Letras de Coimbra, que concluiu com a aprovação da tese A Máquina e a Literatura. As metáforas da máquina em Fernando Pessoa- Álvaro de Campos, sob a orientação do professor Aguiar e Silva, o que lhe permitiu concorrer a uma vaga de professora -adjunta na recém-formada Escola Superior de Educação de Bragança, cidade onde ainda viviam os seus pais. Aí leccionou, por mais de duas décadas, as disciplinas de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, Literaturas e Culturas de Expressão portuguesa, Cultura e Discurso e outras, à medida que os currículos iam sendo alterados. Já na Universidade do Minho, mas com o mesmo orientador, defendeu em 2002 a tese de doutoramento com o título Literatura Portuguesa, a Fundação de uma Disciplina que, em 2011, seria publicada em livro pela Imprensa da Universidade de Coimbra, com o título O Ensino do Português. Como tudo começou, cujo sucesso editorial foi absolutamente nulo. No ano de 2012, um contrato estabelecido com o Instituto Camões levou-a a Luanda, onde leccionou dois breves anos. E vive agora a sua aposentação, numa versão contemporânea, ainda possível, do otium cum dignitate dos idos Humanistas.

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