O matemático angolano “residente” na Biblioteca Central da Universidade da Beira Interior

Evaristo José das Mangas, nascido no Lubango, província da Huíla, mereceu recentemente um destaque da Biblioteca Central da Universidade da Beira Interior (UBI), em Portugal, pela sua presença assídua na instituição. Nas redes sociais, a UBI começou por perguntar: “Quem não conhece o Evaristo?” E acrescentou: “Se costumas frequentar a Biblioteca Central da UBI certamente já te cruzaste com ele. O Evaristo José Das Mangas é, sem dúvida, o nosso utilizador mais fiel. Não falha um dia e, naquelas raras vezes em que não aparece, a sua falta sente-se logo. Mais do que um rosto familiar, o Evaristo é um exemplo de dedicação ao conhecimento”. 

Professor do Instituto de Ciências da Educação (ISCED) do Lubango e a fazer o doutoramento em Matemática e Aplicações em Portugal, onde concluiu o mestrado também em Matemática e foi professor assistente convidado, Evaristo das Mangas é um quadro angolano que, a partir da diáspora, se tem destacado pelo seu engajamento académico. 

Em entrevista ao RECURSO, o professor enfatizou que desde a 10.ª classe frequenta bibliotecas regularmente porque as considera “um lugar sagrado”. É nelas, adiantou, onde faz “constantes ‘meditações’ em busca do saber por meio da leitura”. Considera a biblioteca da UBI especial não só porque encontra nos livros material da sua área de estudo, mas também por achar ser um espaço de aprendizagem de cultura, conforme se pode depreender nos seus dizeres: “aprendo toda uma cultura de ser, estar e fazer, por meio da interacção com outros pesquisadores da biblioteca e com os funcionários sempre atenciosos”. O facto de a biblioteca funcionar 24 horas por dia e permanecer aberta durante o ano todo permitiu-lhe transformar o espaço na “sua segunda casa”, como descreveu a biblioteca na nota de reconhecimento.  

Publicação da Biblioteca Central da UBI. Acesso: https://bit.ly/4bGYRXV

“O reconhecimento é sempre algo que nos valoriza e motiva. Dá-nos a percepção de que alguém nos vê enquanto lutamos pela busca do conhecimento”, reagiu Evaristo.

Tem conhecido muitos estudantes da diáspora a partir da biblioteca, pessoas que levarei “para a vida toda”. Em Angola, não tem a mesma oportunidade, até porque a biblioteca do ISCED-Huíla funciona apenas das 8h às 20h30. 

“Na instituição onde trabalho, reservo-me mais ao meu gabinete para realizar leituras ou preparar as aulas, tenho boa parte dos livros e artigos científicos de que preciso. Ainda assim, estive algumas vezes, enquanto professor, na biblioteca do ISCED-Huíla para consultar bibliografia e fazer leituras breves”, declarou. 

Evaristo das Mangas na Biblioteca Provincial da Huila | Foto: DR

A propósito das bibliotecas no País, Evaristo tem a percepção de que se tem feito algum investimento nas mesmas, pois lembra que, quando frequentou o Ensino Médio, a única biblioteca a que teve acesso era a de uma escola do ensino médio, o ICRA-Regional do Lubango. Mais tarde, frequentou as bibliotecas da Escola Portuguesa do Lubango, Provincial da Huíla, salas de leitura das instituições de ensino secundário e superior, públicas e privadas. 

“Sempre que frequento estes espaços, sinto que o que mais falta são pessoas com uma cultura de leitura que se apropriem deles para leituras mais profundas”, lamentou.

Por ter passado dificuldades no acesso à bibliografia, Evaristo recomenda sempre aos seus alunos, na diáspora ou em Angola, que frequentem as bibliotecas, mas não sabe quantos cultivaram este hábito. 

Ao concluirmos a conversa, não deixou de fazer uma análise sobre a valorização dos professores no País e no mundo.

“A nível internacional, as lutas são muito semelhantes e os problemas tendem a aproximar as realidades. Em vários países, observa-se uma luta constante pela valorização dos professores. É frequente haver elevada retenção ou falta de progressão na carreira e, quando existem concursos internos de promoção, as vagas raramente são suficientes”, explicou. 

Esta realidade, ressaltou, não é exclusiva de Angola, “parece ser uma realidade global”. Na docência, o ensino universitário é um dos mais exigentes, mas realçou que “é pouco recompensadora em termos financeiros”. Esta tem sido a razão para, em muitos países, vários profissionais estarem a abandonar a docência e não ser uma carreira atractiva para os mais jovens. 

A nossa equipa despediu-se de Evaristo, deixando-lhe “no seu ‘habitat natural’”, a Biblioteca Central da UBI.

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