A escola também é isto

Entre Aulas e Ideias nasce da vontade de partilhar o que se vive dentro e fora da sala de aula, os momentos em que tudo se liga e ganha sentido, e também os que nos fazem parar para repensar caminhos. Esta coluna não tem fórmulas. Tem perguntas, práticas, experiências e ideias que resultam do fazer diário, entre turmas, horários, improvisos e descobertas. São registos com cheiro a caderno, a papel de parede de biblioteca, a palco de escola.

Não foi preciso muito para o texto dramático saltar da página. Bastou escutar os alunos. A leitura pedia mais. As personagens chamavam por corpo, por voz, por chão. E foi assim que nasceu a peça. O auditório transformou-se, não em cenário perfeito, mas em espaço vivido. Os alunos chegaram nervosos, mas curiosos. Uns com o texto todo decorado, outros com improvisos à flor da pele. E foi aí que a escola ganhou outra respiração.

Os que quase não falam foram os primeiros a subir ao palco. Os que dizem sempre “não consigo” foram os que fizeram os colegas rir. E os que se escondem nos intervalos encontraram um lugar onde cabem, onde contam. Foi bonito. Foi inesperado. Foi escola no seu melhor.

E não estiveram sozinhos. O envolvimento dos encarregados de educação foi notório, colaboraram a partir de casa com as indumentárias, deram ideias, apoiaram os ensaios e acompanharam o processo com entusiasmo. Os adereços foram feitos pelos próprios alunos, com engenho e simplicidade. Os cenários nasceram da articulação com a disciplina de Educação Artística e tudo foi desenvolvido durante as aulas. Também a edição de vídeos e pequenos teasers ficou a cargo dos alunos, com recurso ao Canva, mostrando que é possível juntar criatividade, expressão e linguagem num só momento vivido em grupo. Foi ali que se percebeu que o texto dramático podia, de facto, sair do manual e do caderno e ganhar vida na escola toda.

As articulações entre disciplinas revelaram-se fundamentais, porque é na junção dos saberes que se encontra o sentido do que se aprende.

Quando Português se cruza com História e Educação Artística, surgem representações visuais do Adamastor, o temível mostrengo de Camões, expostas nos corredores da escola. O que antes se lia com estranheza tornou-se imagem, interpretação, criação. A poesia passou a ter rosto. Os monstros ganharam cor.

Com os alunos de Português Língua Não Materna, a experiência vai mais longe. Eles saem da sala de aula e entram no laboratório de Ciências, onde vivem a língua. Ali, entre experiências, reacções e observações, a língua portuguesa ganha cor, cheiro, movimento. Aprendem vocabulário técnico, exploram estruturas no contexto prático, falam, ouvem, tocam. A linguagem deixa de ser abstracta para passar a ser descoberta.

Mas também é necessário sair da escola. Sair dos manuais. Ir ao encontro dos autores que habitam os programas e dar-lhes voz e rosto. As visitas de estudo a casas-museu e fundações literárias são, muitas vezes, o elo que faltava para ligar o leitor à obra. Conhecer o espólio, ver os manuscritos, pisar o chão de onde nasceram as histórias muda tudo. A leitura ganha densidade. O texto ganha lugar. A experiência ganha memória.

Na escola, a biblioteca reconhece os leitores do mês. Atribui medalhas simbólicas, mas cheias de sentido. Organiza concursos de escrita, leitura em voz alta, oficinas. Leva os alunos a fazer uso real do que aprenderam na aula, num palco, numa folha, perante os colegas. E os alunos descobrem, entre nervos e sorrisos, que afinal conseguem muito mais do que pensavam.

E há práticas que fazem os alunos assumir a leitura como coisa sua. É o caso do projecto Miúdos a Votos, onde escolhem um livro, constroem uma campanha, defendem a sua obra favorita. Vão de sala em sala, resumem a história, explicam por que deve ser lida, recolhem votos. Mais do que uma actividade, é um exercício de cidadania literária. A escola descobre os gostos dos alunos, e os alunos descobrem o poder da palavra escolhida.

Também a leitura em voz alta tem mostrado o que vale. Quando feita em grupo, com pausas, expressividade e escuta, torna-se momento de encontro. Os textos ganham ritmo. As palavras tornam-se pontes. Há silêncios que dizem mais do que certas respostas escritas.

A biblioteca escolar é, muitas vezes, o ponto de partida. Um lugar onde tudo pode começar. Oficinas de escrita, dramatizações, círculos de leitura. Um espaço onde a imaginação se exercita sem medo de errar.

Hoje, há quem diga que é preciso tecnologia para inovar. E é verdade que ajuda. Plataformas como o Kahoot ou o Padlet criam espaços de participação. O Canva, mesmo na versão gratuita, permite que os alunos desenhem, exponham, apresentem. Há liberdade para criar. Há motivação. E isso nota-se.

Alguns professores contam ainda com a Escola Virtual, da Porto Editora, onde encontram recursos, vídeos, exercícios, fichas diferenciadas. Quando estes meios existem, o mais importante é saber como usá-los. Uma estratégia bem pensada vale mais do que o recurso em si.

Mas nem todas as escolas têm acesso a esses apoios. Há quem trabalhe com um quadro de giz e muita vontade. E mesmo aí, com o essencial, é possível ensinar bem, se houver presença e intenção. A criatividade não depende da ligação à internet. Depende da ligação ao que faz sentido.

Na abordagem ao texto jornalístico, por exemplo, os alunos não ficaram pelo quadro teórico. Foram entrevistar pessoas reais, prepararam perguntas, contactaram entidades, ouviram, registaram. No fim, perceberam que escrever uma notícia é mais do que listar características. É saber escutar. É descobrir talentos.

Assim se diz em poesia, quando os alunos receberam palavras soltas e lhes deram forma em versos próprios, criaram mais do que textos. Criaram sentidos. Houve riso, surpresa, comoção. E foi aí que se confirmou que a poesia não precisa de ser explicada, precisa de ser vivida.

Nada disto acontece sozinho. É preciso trabalho, partilha, formação. Nos cursos, nas oficinas, nas conversas entre colegas, vamos crescendo. Testamos, arriscamos, ouvimos, recomeçamos.

No fim, queremos o mesmo: que a escola seja lugar onde a aprendizagem faz sentido. Onde os alunos se envolvem. Onde os professores têm espaço para criar. Onde o erro não é castigo, mas caminho. Onde o quotidiano é lugar de descoberta.

Ensinar, para mim, é isso. Criar possibilidades. Abrir espaços para escuta, expressão, memória. E se a sala de aula, ou o auditório, ou a biblioteca, ou o laboratório, ou uma fundação literária, ou uma entrevista real, ou um poema inesperado, ou um livro defendido em campanha, ou um quadro de giz, respira, talvez seja porque também nós, professores, estamos a aprender, com eles, a respirar com mais sentido.

Autor

Leave a Reply

Siga-nos
Regista Pesquisa
Mais Lidas
Loading

Entrando 3 segundos...

Discover more from Recurso

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading