“Não estava bem estruturado”: Antigos estudantes apoiam chumbo do INAAREES ao curso de Língua Portuguesa da UAN

São os próprios antigos estudantes e até um ex-professor a admitir que o curso de Língua e Literatura em Língua Portuguesa da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto funciona com “fragilidades”. Não contestam, por isso, a decisão do INAAREES e sugerem mudanças “profundas”, porque “aquilo de faculdade não tem nada”.

Antigos estudantes de Língua e Literatura em Língua Portuguesa da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto (UAN) apoiam a decisão do Instituto Nacional de Avaliação, Acreditação e Reconhecimento de Estudos do Ensino Superior (INAAREES) de não acreditar o curso.

Ouvidos pelo RECURSO, na sequência da divulgação dos resultados que culminaram na reprovação de um total de 20 cursos da maior universidade do País, os ex-formandos encaram, todavia, a decisão com um misto de concordância crítica e cautela analítica. Por exemplo, Kilwanji Duarte reconhece que precisaria de ter contacto com os critérios e metodologia usados pelo INAAREES para fazer uma análise mais justa sobre o assunto. Apesar destas reservas, o antigo estudante reconhece que a decisão do órgão avaliador reflete problemas concretos e já vivenciados no quotidiano académico. Segundo relata, já nos seus tempos de licenciatura, entre 2013 e 2016, o curso apresentava “fragilidades” em muitos aspectos. “Os resultados da vida diária podem confirmar que o curso já não estava bem estruturado, que carecia de mudanças extremas e contundentes”, sublinha.

De acordo com Kilwanji Duarte, entre os principais constrangimentos, constavam a insuficiência de investimento, a precariedade das infra-estruturas e a ausência de laboratórios adequados, assim como a falta de docentes. O ex-estudante vai mais longe ao questionar a própria orientação do curso. Para ele, é necessário repensar o seu perfil formativo, pelo que defende uma abordagem mais profissionalizante e menos técnica. Como proposta concreta, sugere a inclusão de disciplinas práticas, como revisão de texto, articuladas com estágios em instituições públicas e privadas.

“Os estudantes podiam sair da faculdade e fazer estágio na administração ou no jornal, no âmbito de uma cadeira prática como revisão de texto”, refere, acrescentando que a decisão do INAAREES não foi uma surpresa. “Já esperava que este curso fosse avaliado negativamente. Uma avaliação contrária é que me surpreenderia”, conclui.

O RECURSO ouviu também o escritor e ex-estudante João Fernando André, para quem a decisão do INAAREES atinge “um dos pilares académicos” da UAN e levanta “dúvidas profundas” sobre o futuro da formação linguística em Angola. Num tom que mistura surpresa, preocupação e tristeza, o escritor fala em “problemas internos relevantes”. Para João Fernando André, a reprovação revela a existência de “fragilidades que precisam de ser enfrentadas com urgência”, sobretudo ao nível da gestão académica e da composição do corpo docente.

“Há um conjunto de elementos que não estão bem. Podem estar ligados à administração do curso, ao currículo ou à falta de professores, especialmente na área das literaturas”, assume, reforçando a necessidade de aquela unidade orgânica da UAN contratar docentes especializados. “As disciplinas de introdução aos estudos linguísticos e aos estudos literários eram pontos sensíveis. Tivemos de fazer um esforço adicional para suprir lacunas”, atesta ao recordar-se dos seus tempos de estudante.

Já o professor reformado Benjamim Fernando, que foi estudante e posteriormente docente do mesmo curso, entende que a reprovação deve ser compreendida à luz de um conjunto amplo de critérios técnicos e estruturais que vão muito além do conteúdo curricular. Sem acesso ao relatório completo da avaliação, o docente recorre à sua experiência como examinador externo em processos semelhantes para sustentar a sua análise. Segundo explica, as avaliações conduzidas pelo INAAREES seguem um caderno de encargos “rigoroso”, que abrange múltiplas dimensões institucionais.

“Não se resume à disciplina de um curso. Avaliam-se conteúdos, qualificação dos professores, categorias académicas e, fundamentalmente, as infra-estruturas.”

É precisamente neste último ponto que Benjamim Fernando identifica uma das maiores fragilidades da instituição. De forma contundente, afirma que a Faculdade de Humanidades não reúne condições mínimas para funcionar como estabelecimento de ensino superior: “Aquilo de faculdade ou instituição escolar absolutamente não tem nada. Só isso já é suficiente para reprovação”, critica.

A suposta precariedade das instalações surge como outro factor crítico na análise. O professor descreve um cenário em que até os espaços administrativos são insuficientes. “No Departamento de Língua Portuguesa, basta entrar um estudante, não há espaço para um segundo ser atendido”, ironiza Benjamim Fernando, que assegura não haver qualquer suspeita de arbitrariedade no processo. Pelo contrário, acredita que a avaliação foi conduzida com “rigor técnico e lisura”: “Tenho a certeza de que não houve nada para além da justiça e tecnicidade. Pode haver tristeza, mas há fundamentos técnicos”, explica o antigo professor, que conclui as suas declarações ao RECURSO com uma crítica ainda mais dura à sua ‘ex-casa’. “Funcionamos quase como uma escola primária ou secundária. Não há investigação, não há intercâmbio, não há circulação de conhecimento.”

Críticas vêm até de dentro

Para Bento Laurindo, ex-estudante do curso em referência e hoje afecto justamente ao departamento que trata desta formação na Faculdade de Humanidades da UAN, a decisão deve ser encarada como uma oportunidade de melhoria e não como um motivo de ressentimento. Num posicionamento próprio de quem trabalha na instituição de que fala, Bento Laurindo considera a avaliação do INAAREES “uma crítica bem-vinda”.

Longe de encarar a decisão com mágoa, o entrevistado adopta uma perspectiva construtiva, sublinhando que a crítica é parte integrante de qualquer actividade. “Cabe agora ao departamento, à universidade e ao próprio Ministério reverem com calma os indicadores que levaram à reprovação”, apela Bento Laurindo, referindo que o momento exige uma “revisão profunda e articulada” de vários elementos estruturantes do curso. Entre os aspectos a serem reavaliados, destaca as infra-estruturas, o corpo docente, os funcionários administrativos, bem como os planos curriculares e os perfis de entrada e saída dos estudantes.

E são precisamente estes últimos, os estudantes, sobretudo os que ainda frequentam a formação, que mais se mostraram preocupados com o chumbo do INAAREES. Embora não falte quem tenha deixado de opinar por medo de sofrer alguma represália, estudantes como Maria Sunga Pedro e Filipa Gonçalves, respectivamente, a frequentarem o 2.º e 4.º anos do referido curso, dão a cara por uma reclamação que tem muitos outros intervenientes.

Maria Sunga Pedro, por exemplo, queixa-se do facto de a decisão do INAAREES não ter sido comunicada pela própria universidade aos estudantes. Para ela, este facto indica não apenas a ausência de transparência, mas também “um certo afastamento” entre a gestão académica e o corpo discente.

Já Filipe Gonçalves oferece um testemunho mais operativo, centrado na experiência concreta do quotidiano académico: “Há disciplinas em que os professores faltam várias vezes e nem sempre as aulas são repostas”, denuncia.

Um outro estudante, igualmente do 4.º ano, que preferiu o anonimato, reconhece que, após a divulgação dos resultados da avaliação do INAAREES, passou a compreender melhor as fragilidades do curso, numa espécie de espelho que reflectiu a realidade interna.

Divulgados na semana passada em Luanda, os resultados do Processo de Avaliação Externa e Acreditação do Ensino Superior dão às universidades públicas e privadas visadas até dois anos para implementar melhorias. Durante esse período, não recebem novos estudantes. Se fizerem as correcções em menos de um ano, podem pedir reavaliação e, caso aprovem, podem receber novos estudantes. Se o fizerem em dois anos, também podem proceder da mesma forma. Caso não o façam ou caso não aprovem nas reavaliações, o resultado será a descontinuidade do curso.

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