Professores importam, sim, mas o problema ultrapassa a sua qualificação

Os dados sobre a composição do corpo docente das instituições de ensino superior em Angola, conforme noticiado na edição de 11 de Junho do Jornal Expansão, revelam um cenário preocupante. Segundo a matéria, apesar de o Estatuto da Carreira Docente do Ensino Superior estabelecer mecanismos para a progressão académica dos docentes e de especialistas recomendarem que pelo menos 50% do corpo docente possua o grau de doutoramento, a realidade está muito distante desse ideal. No ano académico de 2023/2024, apenas 12% dos docentes eram doutores, enquanto 51% possuíam apenas o grau de licenciatura. Em termos práticos, por cada dez professores universitários, cinco são licenciados, quatro são mestres e apenas um é doutor.

Este indicador evidencia uma fragilidade estrutural do ensino superior angolano. A presença de um número reduzido de doutores pode limitar a capacidade das universidades para desenvolver investigação científica de qualidade, orientar trabalhos académicos avançados, produzir conhecimento inovador e fortalecer a internacionalização das instituições. Além disso, docentes com formação doutoral tendem a possuir maior preparação para integrar actividades de investigação e extensão universitária, dimensões essenciais ao desenvolvimento de uma universidade moderna.

Todavia, considerar o número de doutores como o único critério para avaliar a qualidade do ensino superior seria uma análise simplista. A qualidade académica resulta da combinação de vários factores que interagem entre si. Mesmo que uma universidade aumente significativamente o número de docentes com doutoramento, os resultados poderão continuar limitados caso persistam problemas relacionados com infra-estruturas inadequadas, escassez de recursos para investigação e insuficiência de apoio aos estudantes.

As infra-estruturas universitárias constituem um elemento fundamental para a qualidade do ensino. Neste sentido, bibliotecas actualizadas, laboratórios equipados, acesso à internet de qualidade, salas de aula modernas e plataformas digitais de aprendizagem são recursos indispensáveis para a formação dos estudantes e para o trabalho dos docentes. Sem estas condições, o potencial académico dos professores dificilmente será plenamente aproveitado.

Outro factor decisivo é o financiamento da investigação científica. A produção de conhecimento exige investimentos contínuos em projectos de investigação, participação em conferências, publicações científicas e cooperação internacional. A falta de financiamento consistente reduz a capacidade das universidades para gerar inovação e contribuir para a resolução dos problemas sociais, económicos e tecnológicos do país.

A formação contínua dos docentes deve merecer igualmente atenção especial. Num contexto de rápidas transformações científicas e tecnológicas, a actualização permanente das competências pedagógicas e científicas é indispensável. Programas de capacitação, bolsas de estudo para mestrado e doutoramento e incentivos à investigação podem contribuir significativamente para elevar a qualidade do corpo docente.

Por fim, a melhoria dos serviços de apoio aos estudantes deve ser considerada uma prioridade. Serviços de orientação académica, apoio psicológico, assistência social, programas de bolsas e acesso facilitado a recursos tecnológicos influenciam directamente o desempenho e a permanência dos estudantes no ensino superior. Não devemos focar-nos apenas no acesso ao ensino superior, mas também nas condições que reduzam a evasão escolar e reforcem a permanência e o sucesso académico dos estudantes.

Portanto, embora o reduzido número de professores com doutoramento represente um dos indicadores mais preocupantes do ensino superior angolano, a solução não passa exclusivamente pelo aumento das qualificações académicas dos docentes. É necessário adoptar uma visão integrada que contemple melhores infra-estruturas, maior financiamento à investigação, formação contínua dos professores e fortalecimento dos serviços de apoio aos estudantes. Somente através desta abordagem abrangente será possível construir um sistema de ensino superior mais competitivo, inclusivo e capaz de responder aos desafios do desenvolvimento nacional.

Importa ainda reconhecer que a análise do ensino superior em Angola evidencia problemáticas estruturais mais profundas, entre as quais se destacam a crise de sentido da universidade, a massificação desacompanhada de qualidade, a descontextualização curricular e a predominância de sistemas de avaliação centrados na memorização em detrimento da compreensão. Este modelo tende a desincentivar o pensamento crítico e a reduzir o processo educativo a uma prática formal desprovida de significado substantivo. Trata-se, portanto, de uma problemática de natureza estrutural que ultrapassa a responsabilização individual de docentes e discentes.

Autor

  • Investigador-Coordenador do Núcleo de Políticas Educacionais Angolanas (NuPEa)

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