
Para centenas de jovens que deixaram o Cuanza-Sul em busca de formação superior, a cheia do rio Cavaco não foi apenas um desastre natural, mas um golpe profundo nos seus projectos de vida. Sem o apoio da família por perto e com computadores, cadernos e materiais de estágio enterrados na lama, estes estudantes enfrentam agora o dilema de como recomeçar do zero num território onde são “estrangeiros” na própria terra.
A crise é particularmente aguda para a comunidade académica do Cuanza-Sul residente em Benguela. Diferente dos residentes locais, estes jovens dependem exclusivamente da solidariedade entre pares.
Eufrasina Felgueiras, presidente da Comunidade Académica do Cuanza-Sul em Benguela (CACSB), alerta para a gravidade. “Estamos aqui apenas como estudantes, não temos parentes nem onde recorrer. Já identificamos seis colegas sem ter o que comer, sem casa e sem roupa, porque as águas levaram tudo”.
O trauma é partilhado por quem viveu a subida repentina das águas. Stélvio Germano, estudante de Electromecânica no Jean Piaget, relata que a água ultrapassou o seu umbigo, mesmo medindo 1 m 85 cm. Forçado a abandonar a residência com apenas o computador e poucas peças de roupa, Stélvio sobrevive agora acolhido na casa de um amigo, onde cinco estudantes partilham um espaço exíguo.
“Agora estou em casa de um amigo que veio do Cuanza-Sul para estudar, somos os cinco sob responsabilidade deste amigo. Só para teres uma noção, eu meço 1 metro e 85 e o nível de água passou o meu umbigo. Consegue mais ou menos analisar o nível de transtornos que sofremos”, deplorou.
Para os finalistas, o prejuízo transcende o abrigo e atinge o futuro profissional. Osvaldo Fonseca, finalista do curso de Análises Clínicas no Instituto Superior Politécnico de Benguela (ISPB), viu o seu investimento de anos desaparecer na lama da Massangarala.
“Perdi os meus materiais para o estágio e todos os livros. A ideia é prosseguir, mas primeiro precisamos de recursos para nos reorganizarmos”, lamenta o estudante.
Com mais de 250 estudantes ligados por grupos de WhatsApp, a CACSB tenta mitigar a situação enquanto aguarda por uma intervenção estatal que olhe especificamente para o sector do ensino.
A suspensão das aulas decretada pelo Governo Provincial deu uma trégua necessária, mas o desafio real começa quando as portas das faculdades reabrirem. Sem computadores e instrumentos técnicos, o risco de evasão escolar é real. A corrente de solidariedade académica é, por agora, o único muro de contenção para evitar que a cheia do rio Cavaco se transforme numa onda definitiva de desistências no ensino superior.






