Alimentação escolar chega ao bairro Somália, no Namibe, onde havia desmaios por causa da fome

Escola primária de bairro do Namibe associado à pobreza já tem ‘alimentação escolar’. RECURSO esteve no lançamento do programa e viu um director emocionado por, três anos após inauguração, a escola ser alvo de “uma mudança estrutural”.

A Escola Primária n.º 117 NBE, situada no bairro Somália, município de Moçâmedes, província do Namibe, começou, nesta semana, a implementar o Programa Nacional de Alimentação Escolar, iniciativa do Estado que poderá aliviar “situações difíceis”, apurou o RECURSO.

Segundo Fernando Caulimano Muantemba, o director da instituição também conhecida como ‘Escola Manuel Francisco Peú’, desde a sua inauguração, em 2023, há registos de “entraves” no rendimento académico dos alunos directamente associados à fraca alimentação.

“Ao longo destes três anos em que a nossa escola primária está em funcionamento, temos alunos com episódios de desmaios que chegavam aqui em situações bastante difíceis”, explica o responsável, antes de rematar: “Numa primeira análise, poderíamos sugerir que se tratava de uma enfermidade, mas, após investigarmos, verificávamos que o problema residia na fome.”

Fernando Caulimano Muantemba acrescenta que a carência alimentar também se reflectia no absentismo escolar, pois, incapazes de suportar as horas de aula em jejum, “muitas crianças simplesmente abandonavam a sala antes do fim do período lectivo”.

Por isso, em declarações ao RECURSO, o director não tem dúvidas de que, para as mais de 500 crianças matriculadas naquela escola, a chegada do programa representa “uma mudança estrutural” na saúde e disposição para aprender.

“Não é fácil descrever este momento. Sinto-me alegre por ver que os nossos alunos, que ontem passavam por dificuldades, já conseguem provar algo quente”, diz Fernando Caulimano Muantemba, destacando que “a alimentação escolar traz motivação e condições cognitivas para que os alunos acompanhem as matérias com a devida atenção”.

Para assegurar que o apoio chega da melhor forma às crianças, a Comissão de Pais e Encarregados de Educação designou as senhoras Joaquina Chilombo e Eugénia Tchipina para fiscalizarem diariamente a higiene e a preparação dos alimentos. No primeiro dia, como constatou o RECURSO, as condições foram validadas como “excelentes”.

Um nome nada inocente

O bairro Somália não carrega este nome por acaso. A designação, adoptada pela própria comunidade ao longo dos anos, é um reflexo directo das condições extremas em que vivem os moradores. Tal como o país africano que lhe deu o nome, frequentemente associado a indicadores muito baixo no que ao Índice de Desenvolvimento Humano diz respeito, o bairro é historicamente marcado por imagens de desnutrição e escassez de recursos básicos.

A zona cresceu entre habitações precárias, conhecidas como “bate-chapas”  – barracos construídos com chapas de zinco enferrujadas –,  onde famílias sem rendimentos estáveis tentavam sobreviver à margem da urbanização formal. Embora, actualmente, a situação habitacional seja diferente, muitas crianças frequentam a escola, por vezes, sem a garantia de uma alimentação regular em casa.

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