
Em Moçâmedes, falta de escolas obriga alunos a percorrer longas distâncias para estudar. Mas até isto é visto como privilégio, porque quem não consegue vaga fica em casa, sem estudar, à espera de nova tentativa no ano seguinte. Presidente do conselho de moradores fala em “situação preocupante”
O crescimento populacional das comunidades da Somália, das Cinco Casas e do Sector 3 de Março, no município de Moçâmedes, província do Namibe, tem aumentado a pressão sobre a rede escolar existente. Os moradores defendem a construção urgente de novas escolas do primeiro e do segundo ciclos do ensino secundário alegando que as infra-estruturas actuais não conseguem responder à procura crescente de alunos em idade escolar.
O apelo foi feito por Paulo Mutanda, conhecido como “Tio Loló”, coordenador do bairro e presidente do conselho de moradores, que estima que as três zonas reúnam uma população aproximada de 5.831 habitantes. Segundo o responsável comunitário, além da educação, as populações enfrentam dificuldades relacionadas com o acesso à água e à saúde, mas a falta de escolas surge como uma das maiores preocupações das famílias.“Temos uma população que continua a crescer, mas as infra-estruturas sociais não acompanham esse crescimento. Na educação, a situação é preocupante, porque muitos alunos terminam a 6ª classe e depois encontram grandes dificuldades para continuar os estudos”, explicou Paulo Mutanda.
Em 2023, o Governo, através do Ministério da Educação, inaugurou a Escola Primária nº 170 “Manuel Francisco Peú”, no bairro da Somália, numa resposta importante às necessidades da comunidade. Antes da construção desta escola, muitos alunos eram obrigados a estudar em condições difíceis, em “bate-chapas” (escolas feitas com chapas de zinco), onde mais de uma centena frequentava as aulas.
Apesar deste avanço, a comunidade considera o problema por resolver. A escola garante o ensino até à 6ª classe, mas depois desta etapa inicia-se um novo desafio: encontrar vagas no primeiro ciclo do ensino secundário, correspondente às 7ª, 8ª e 9ª classes.
Segundo Tio Loló, alguns alunos deslocam-se para a Escola do Dangereux, considerada distante, ou para a Escola Emília, também distante e insuficiente para atender à demanda. Há ainda a Escola 4 de Janeiro, que atende da 7ª à 9ª classe. Mesmo com estas instituições, a procura continua superior à capacidade existente.
De acordo com os encarregados de educação ouvidos pelo jornal RECURSO, há alunos que, devido à falta de dinheiro para transporte, são obrigados a superar o cansaço e percorrer entre três e seis quilómetros diariamente para chegar às escolas. Mas até isto é visto como privilégio, porque quem não consegue vaga fica em casa, sem estudar, à espera de nova tentativa no ano lectivo seguinte.
Henriques Muafeca, Pedro Catumua e Regina Dose Agostinho são o exemplo de encarregados de educação que procuram agora, como muitos outros nas comunidades, uma vaga noutra escola para que seus filhos continuem os estudos.

Existe ainda um complexo escolar na zona das Cinco Casas, mas trata-se de uma instituição privada, o que não resolve a necessidade das famílias com baixas condições financeiras. Tio Loló afirma já ter entregado por duas vezes documentos às autoridades competentes, com levantamentos sobre o número de alunos existentes e a necessidade urgente de uma escola.
O coordenador destaca ainda que alguns alunos saem diariamente de zonas como Cinco Casas e Somália para estudar em áreas mais distantes, incluindo a Praia Amélia, um percurso que representa riscos devido à distância, ao terreno desértico e à exposição a perigos de vária ordem.
Para os jovens que concluem o primeiro ciclo e pretendem frequentar o ensino médio (segundo ciclo, correspondente a 10ª, 11ª, 12ª e 13ª, no caso de técnico-profissional), as dificuldades aumentam. As escolas disponíveis encontram-se ainda mais afastadas da comunidade.
Entre as opções está o Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), uma instituição privada, o Magistério Júlia Lopes, o Complexo Marítimo Hélder Neto e o Liceu 10 de Dezembro, este último junto à zona do Projecto X. Todas estas escolas do ensino médio ficam muito distantes das comunidades da Somália, das Cinco Casas e do Sector 3 de Março.
Para uma população de renda baixa como esta, a distância até estas escolas, somada às condições sociais das famílias, não favorece a continuidade dos estudos. Como agravante, muitos jovens acabam por desistir, pois não conseguem suportar o custo do transporte ou o desgaste dos longos percursos diários.
Em face deste cenário, os moradores defendem a construção de, ao menos, um complexo escolar no bairro das Cinco Casas, um complexo escolar na zona da Somália, um complexo escolar no Sector 3 de Março e duas escolas destinadas ao segundo ciclo do ensino secundário.
Contundo, como prioridade, a comunidade do bairro da Somália dirige um apelo directo ao administrador municipal de Moçâmedes, Abelardo Lemba, sobre a necessidade urgente da construção de uma escola do primeiro ciclo na zona.
Para Paulo Mutanda, a construção destas infra-estruturas permitiria reduzir as longas deslocações dos alunos e garantir que mais crianças e jovens tenham acesso à educação em condições adequadas.
Apesar de tudo isso, a comunidade diz reconhecer o esforço já feito pelo Governo com a construção da Escola Manuel Francisco Peú, mas entende que o crescimento populacional exige novas respostas, sob pena de mais uma geração de jovens ficar pelo caminho, entre a falta de vagas e a distância que os separam das salas de aula.






