E se mostrássemos o que acontece, de facto, na aula?

Circulam, nos últimos tempos, vídeos de professores a dançar com os alunos, provenientes de diferentes países e contextos, muitos deles de escolas africanas, incluindo angolanas. Há danças e ritmos diversos, cantorias, coreografias, gargalhadas e, aparentemente, muita motivação. Os alunos parecem envolvidos, o professor próximo da turma e, nos comentários, não faltam elogios àquele professor que conseguiu pôr toda a gente a participar.

Perante estes vídeos, uma questão coloca-se: e a aula?

Não se pretende com isto afirmar que ela não tenha acontecido. Pode ter antecedido a dança e continuado depois dela, tal como aquele momento pode integrar uma sequência didáctica devidamente pensada. O que o vídeo não permite perceber é a relação entre o momento lúdico e o conteúdo que está a ser trabalhado, o que o antecedeu e lhe sucedeu, o objectivo de aprendizagem que lhe estava associado ou, simplesmente, se existia essa articulação. Vemos a dança, a cantoria, o entusiasmo e a participação dos alunos, mas fica fora do vídeo uma parte considerável do que efectivamente acontece numa aula e que permite compreender como se constrói a aprendizagem.

Se mostrássemos uma aula como ela acontece, de facto, veríamos o professor a explicar e, pouco depois, a explicar novamente porque alguns alunos não perceberam. Veríamos uma pergunta inesperada obrigá-lo a procurar outra forma de chegar ao mesmo conteúdo, alunos a acertar à primeira e outros a errar, apagar e recomeçar. Haveria leitura, escrita, correcção, discussão, exercícios, perguntas e momentos de silêncio. Talvez víssemos também aquele aluno que parecia completamente alheado e que, de repente, percebeu.

Provavelmente, não daria um vídeo muito interessante para as redes sociais.

E ainda bem que não temos de filmar tudo isto. Entre preparar a aula, ensinar, acompanhar diferentes ritmos de aprendizagem, esclarecer dúvidas, gerir a turma, avaliar e responder às muitas outras exigências do trabalho docente, só faltava acrescentar mais uma preocupação: encontrar o melhor lugar para colocar o telemóvel e o momento certo para começar a gravar.

A questão torna-se, contudo, mais séria quando determinados fragmentos da vida escolar, justamente por serem aqueles que mais facilmente circulam, começam a ser tomados como medida de uma boa prática pedagógica. Um vídeo de poucos segundos não permite avaliar uma aula, muito menos o trabalho de um professor, do mesmo modo que o entusiasmo visível dos alunos não permite concluir, por si só, que houve aprendizagem. Pode ter havido, evidentemente, mas o vídeo, por si só, não nos permite sabê-lo.

É neste quadro que importa pensar o lugar do lúdico no processo de ensino e de aprendizagem. Uma actividade não se torna pedagógica apenas porque é divertida ou porque consegue mobilizar toda a turma. O seu sentido decorre da articulação que se estabelece entre a actividade proposta, os conteúdos em estudo e as aprendizagens que se pretende promover. Deste ponto de vista, a questão deixa de ser saber se os alunos se divertiram e passa a incluir outras perguntas: para que serviu a actividade, o que mobilizaram durante a sua realização e o que aprenderam com ela?

As possibilidades de utilização pedagógica do lúdico são diversas. Um jogo de revisão pode levar os alunos a recuperar conhecimentos anteriormente trabalhados; um desafio entre grupos pode levá-los a discutir respostas, confrontar possibilidades e justificar escolhas; uma dramatização pode contribuir para a compreensão de uma personagem ou de uma situação comunicativa; um jogo de palavras pode permitir trabalhar vocabulário, relações semânticas ou estruturas linguísticas. Até uma dança pode integrar uma actividade pedagógica, desde que exista um propósito que justifique a sua presença naquele momento da aula.

O lúdico pode, assim, fazer parte da aula sem que esta tenha de se transformar num espectáculo. Esta distinção é particularmente importante quando se associa o lúdico à motivação, pois motivar um aluno não significa mantê-lo permanentemente entretido. Se assim fosse, talvez fosse necessário acrescentar à formação de professores aulas de dança, canto e representação e, já agora, um pequeno módulo de produção de conteúdos para as redes sociais.

Há, felizmente, formas bem menos “filmáveis” de motivar uma turma. Uma boa pergunta pode despertar a curiosidade; um problema cuja resposta não seja imediatamente evidente pode desafiar os alunos; um jogo pode tornar a revisão de conteúdos mais estimulante; uma tarefa em grupo pode levá-los a discutir, argumentar e construir uma resposta comum. Há também aquele momento, aparentemente pouco extraordinário, em que uma explicação torna compreensível aquilo que, minutos antes, parecia demasiado difícil. Tudo isto também pode mobilizar e motivar os alunos, o que significa que há aulas extraordinariamente produtivas em que ninguém dança, tal como há outras em que se dança e se aprende.

A questão não está, portanto, na dança em si, mas no lugar que esta ocupa no processo de ensino e de aprendizagem.

Talvez, por isso, da próxima vez que um destes vídeos aparecer nas redes sociais, possamos apreciar a alegria dos alunos e a proximidade do professor sem transformar aqueles segundos numa medida da qualidade da aula. Há sempre muito que fica fora da gravação.

E, no fim, permanece uma pergunta bastante menos interessante para as redes sociais, mas muito mais importante para a escola: o que aprenderam os alunos?

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