
O regresso às aulas no município de Benguela, autorizado pelo Governo Provincial para esta segunda-feira, 20, encontrou um cenário de resistência e dor nos centros de acolhimento. Apesar da retoma oficial na maioria das instituições após as vistorias técnicas, centenas de alunos continuam fora das salas de aula.
O drama é vivido de perto por Jorge Gomes, pai de duas crianças alojadas em tendas, que aguarda por uma solução habitacional para poder transferir os filhos.


“Não recebemos um comunicado do governo, e as pessoas estão já a se fartar. Muitos de nós queremos já voltar para casa e mandar as crianças estudarem com familiares, para não perderem o ano”, afirma.
Com 18 anos de idade, Isabel Graciano frequenta a 10ª classe numa escola que não sofreu danos, mas a destruição da sua casa no bairro da Ilha interrompeu os seus planos académicos.
“A nossa casa entrou água, e perdi os meus materiais escolares. Por isso, estou aqui sem ir à escola com os meus dois irmãos parados também”, relata a jovem.
Esse sentimento de impotência é partilhado também por Odília Maria de Jesus, mãe de quatro filhos, que teme o fracasso escolar da sua prole por falta de condições básicas.
“As crianças estão sem materiais académicos, e estamos aqui com medo de que reprovem. Elas querem mesmo voltar, mas nós não temos como fazer”, lamenta.


Enquanto o governo mantém 11 escolas encerradas por precaução, como o Colégio Paulo Teixeira Jorge e o Complexo 1077, a análise técnica aponta para um cenário de risco duplo. O professor Adérito Chiete, do Liceu do Lobito, observa dois lados fundamentais desta crise. “Faz todo o sentido o governo não expor os estudantes a condições não aceitáveis, enquanto as escolas não reúnem condições de segurança”.
Por outro lado, alerta para o impacto pedagógico devastador, sublinhando que o terceiro trimestre é o mais curto do ano, com apenas dez semanas lectivas.
“O terceiro trimestre é o mais curto, que compreende 10 semanas lectivas, e o mesmo começou na semana passada. Há uma série de consequências e uma delas é a desmotivação, porque muitos desses estudantes acabaram por perder conteúdo, vão ter que recuperar, e isso pode contribuir para o insucesso escolar, como também para o elevado índice de desistência”, detalha.
O professor reforça que a situação nos centros de acolhimento, muitas vezes sem condições para estadas longas, força famílias a migrarem para outras províncias, agravando o abandono das salas de aula em Benguela.
“Nós temos informações de famílias que, por conta dessa situação, tiveram que viajar, ir para outra província porque o centro de acolhimento não oferece condições suficientes às pessoas e isso pode, de facto, aumentar o nível de desistência e insucesso escolar”, lamenta.
Portanto, entre os comunicados oficiais e a realidade das tendas, a incerteza sobre o futuro académico de milhares de jovens permanece. O desafio agora não é apenas reconstruir escolas, mas garantir que alunos como Isabel e os filhos de Jorge e Odília tenham os meios necessários para cruzarem o portão da escola novamente.






