Crise em Benguela e o ideal da Educação

Os eventos de Benguela reviveram uma experiência cognitiva neste nosso processo de construção como pessoa, até porque na sabedoria Kongo somos uma obra inacabada até à morte. Durante uma calamidade, um tsunami, as pessoas não geriam a situação com pânico. Feitos autómatos, sabiam o que fazer, como fazer, o que dizer, e, acima de tudo, não anular a qualidade de pessoa nos outros. Eram somente pessoas num momento de crise. Num outro, em contexto semelhante, um furacão, a situação gerou um caos, quer nas pessoas afectadas como nos governantes. Eram realidades do mesmo planeta, mesma época histórica. Apesar disso, as pessoas revelaram comportamentos distintos. 

Num debate com pares, o consenso sobre a razão destes comportamentos deve-se à natureza da educação das sociedades. É a demonstração do ideal da educação não reduzida à escolarização, a simples certificação de pessoas para o mercado do trabalho, ou negócios da esfera pública. Mas qual é a razão desta diferenciação no produto da escola? 

O pensar colonial da educação funda-se no alterecídio e no epistemicídio, entre outros princípios de negação dos outros. Nesta condição, a educação distancia-se da cultura das pessoas em nome dos interesses dominantes. Geralmente, esses interesses assentam na defesa da preparação técnica, e não na condição humana das pessoas face à natureza, e os diálogos que esta demanda. Neste cenário, o sujeito cultural é substituído pelo ser adestrado como ferramenta da produtividade.

É nesta condição que a pessoa perde a noção da dimensão da responsabilidade como regulador das suas relações na sociedade. Como compromisso ético e social, no exercício da responsabilidade, como no pensamento de Levianas, o outro nas suas necessidades é o tradutor da acção entre humanos-sujeitos. 

Neste ideal, a educação intermedeia a possibilidade de os sujeitos dialogarem e decifrarem a cultura e seus processos de construção histórica como a possibilidade de articular os diálogos com a natureza — pessoas, animais, vegetais e ambiente. Estes diálogos ajudam-nos a mitigar os impactos dos atritos destas relações, e também de superar a intoxicação do pensamento colonial assente no altericídio na lida com os outros, animais, vegetais, ambiente. Compreender a linguagem dos mares, dos rios, dos vales, das florestas, dos solos, dos minerais, etc, é lidar com a responsabilidade de compreender e respeitar as necessidades do outro, logo, tarefa central da educação. 

E qual é a relação com a crise de Benguela?

As ilustrações de abertura destas notas mostram, como diria Terry Deal, a maneira como fazemos as coisas aqui, isto é, a cultura que informa comportamentos e tomadas de decisões. O pensar e o agir são naturalmente produtos da educação forjada nos processos sociais que buscam produzir saberes culturais para se interpretar o mundo e agir sobre ele. Os elementos do mundo presentes em Benguela são as pessoas, os animais e o ambiente.

Os episódios significativos de cheias em Benguela causados pelos rios Cavaco, Catumbela e Coporolo registam-se desde 1951, e ultimamente em ciclos mais curtos e em vários territórios da província. E o que temos assistido são mortes e destruições, e a deficitária capacidade de lidar com a emergência da situação, e a gestão dos riscos. A governação e as comunidades de prática não desenvolvem saberes funcionais para mitigar os naturais riscos da relação das pessoas com a natureza. 

Se a realidade revela o canário da incapacidade de se gerar a transcendência dos limites humanos na oposição com a natureza, isso revela que os ideais e as práticas da educaçãolimitam o pensar e o agir humano face às suas necessidades de produzir o bem-estar na resiliência humana. 

A gestão das situações de riscos ilustrados pelos eventos das cheias é um argumento bastante para a reforma do sistema de produção de saberes pela educação, que não se limita ao processo da escolarização. Vive-se um analfabetismo sobre as linguagens das cheias de Benguela, e já agora de muitas outras situações de risco em Angola, como a sinistralidade rodoviária e ferroviária, as doenças endémicas, fome, etc. 

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