Casal de professor e vendedora transforma casa em escola primária para crianças fora do sistema de ensino

Num bairro periférico de Luanda, onde falta o mais básico, desde água potável até energia eléctrica, centenas de famílias não têm recursos financeiros para pagar os custos das escolas privadas nos arredores, na ausência de escolas públicas nas imediações. Diante deste cenário, um casal decidiu ‘escancarar’ as portas da sua casa para alfabetizar crianças em idade escolar.

O altruísmo de António e Suzana, residentes no bairro Boa Esperança Mundial, no município de Belas, em Luanda, tem proporcionado a quase uma centena e meia de crianças a possibilidade de frequentar uma escola de alfabetização, numa zona onde faltam escolas públicas e muitas famílias não têm recursos financeiros para suportar as propinas das escolas privadas. 

Decididos a dar algum contributo, o professor e a mulher, vendedora no mercado informal, adaptaram a própria casa para dar aulas às crianças fora do sistema de ensino. Baptizado de Colégio Lírio da Suzana, o espaço de aprendizagem foi inaugurado em 2016, quando António Figueira, professor de 36 anos de idade, fez um “estudo de viabilidade” naquele bairro que enfrenta quotidianamente uma dura realidade. 

“Esta ideia nasceu em 2016, quando fiz um estudo de viabilidade e senti as dificuldades que alguns encarregados de educação têm tido para colocar os seus filhos na escola devido ao alto custo das propinas”, explica.

António Figueira, quando viu crianças sem escola, famílias sem recursos e um sistema que deixava os mais frágeis para trás, tomou a decisão que muitos considerariam impensável: abrir as portas da própria casa. “O que me motivou a sacrificar parte da minha casa foi ver que era urgente e necessário ajudar estas crianças”, justifica.

Suzana: a mulher que vende para que os livros não faltem

Um projecto desta natureza não teria existido sem sacrifício partilhado. No caso do Colégio Lírio da Suzana, há uma segunda personagem fundamental cujo nome decora a infra-estrutura do colégio. A esposa de António, Suzana, trabalha como vendedora na Praça Nova, no mesmo bairro, e é, nas palavras do marido, um “pilar indispensável desta iniciativa”, tendo merecido a nomeação como homenagem à sua coragem e bravura ao ajudar o esposo neste projecto educativo.

“Eu sustentava este projecto com o meu pequeno salário que recebia pelo trabalho como professor em algumas instituições escolares, mas não posso esquecer também a ajuda da minha querida esposa Suzana, que trabalha como vendedora na Praça Nova. Ela tem dado um grande apoio com o pouco que ganha nas suas vendas e tem uma concordância admirável neste projecto”, reconhece António Figueira. 

É com esse dinheiro, ganho dia após dia numa bancada de mercado, que se compram materiais didácticos, se suprem lacunas e se mantém vivo um projecto que as autoridades responsáveis do sector ainda não viram.

Dez anos de resistência e 120 crianças depois

Passados dez anos desde a fundação, o Colégio Lírio da Suzana acolhe actualmente 120 crianças e conta com a colaboração de dois jovens professores voluntários, Ambrósio Francisco e Matias Simões, estudantes do ensino médio residentes no mesmo bairro, que, igualmente comovidos com o abandono em que aquelas crianças vizinhas se encontram e com o esforço diário empregado pelo casal, se juntaram à ‘equipa operativa’. Com este incremento, mais crianças passaram a beneficiar de aulas e estão a aprender a ler e a escrever. 

“Não sei como agradecer ao Ambrósio e ao Matias. São jovens que fizeram e fazem parte de toda a história, porque sem eles não teríamos o progresso que conseguimos atingir. Hoje, se temos crianças que sabem ler e escrever, damos graças a Deus e também a eles”, realça o professor.

António Figueira, que entretanto deixou de leccionar noutras instituições, disse que, sem emprego, se dedica única e inteiramente ao projecto. Questionado se recebe algum dinheiro pelo trabalho que desempenha, informou que actualmente as famílias contribuem com uma mensalidade simbólica, fixada em mil kwanzas por aluno, valor que inicialmente foi de 500 kwanzas. 

“Tenho mantido este projecto em pé graças a alguns valores que vêm dos encarregados de educação. No princípio eram 500 kwanzas por aluno, mas agora é mil kwanzas mensais”, esclarece.

Mas a escolinha continua a enfrentar dificuldades enormes, pois a mensalidade paga pelas famílias não chega para suprir todas as necessidades do espaço. 

“Precisamos de carteiras, materiais didácticos para os nossos meninos, bons quadros para oferecermos um ensino de qualidade e, não nos esquecendo, das dificuldades na infra-estrutura da escola”, detalha.

O sonho: um colégio a sério para quem mais precisa

António e Suzana não querem apenas manter o que têm. Almejam crescer e têm uma visão clara do que esse crescimento significa. 

“O objectivo é permitir que estas crianças tenham aulas de informática, de música e não só. Para a realização destas actividades, precisamos de computadores e instrumentos musicais. Também aumentar a infra-estrutura e fazer uma pequena escola com algumas salas de aulas previamente e, à medida que crescemos, aumentar mais salas”, ambicionam. 

Outro desafio a que se propuseram é o de registar legalmente o espaço para que, assim, seja possível emitir certificados válidos às crianças. Na condição informal em que actua, a educação que ministra aos pequenos não tem reconhecimento oficial, pelo que as famílias não conseguem comprovar o nível de escolaridade dos seus filhos. Quando concretizarem o objectivo de legalização da escolinha, tornando-a num colégio privado, as “propinas continuarão adaptadas às condições reais do bairro”. 

“Será sempre uma escola que não exclua quem menos tem. Porque o que desejo para estas crianças é que elas tenham a mesma qualidade de ensino que outras escolas reconhecidas têm”, observa António.

A história deste casal, que precisa de ajuda com livros, melhorias na infra-estrutura que alberga a escolinha e também na capacitação contínua da equipa, é uma inspiração para a comunidade da Boa Esperança, em especial, mas também para a sociedade angolana, no geral, onde cerca de 4,5 milhões de crianças e jovens entre os 5 e os 18 anos de idade estão fora do sistema de ensino, segundo dados do Censo de 2024 divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística. 

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