
Prova de aptidão profissional que avalia 273 finalistas da 13.ª classe, na Escola de Magistério Kimamuenho, na província do Bengo, decorre num contexto de desafios estruturais que incluem a insuficiência de professores orientadores e dificuldades no acompanhamento dos estágios nas escolas de aplicação.
O coordenador de Práticas, Seminário e Estágio Pedagógico no Magistério Kimamuenho, no Bengo, lamenta que, em várias escolas de aplicação, não existam professores tutores, resultando num acompanhamento irregular dos formandos, o que leva, em alguns casos, os estagiários a assumirem turmas sem supervisão adequada. Alexandre Cristóvão, em declarações ao RECURSO, assume que esta prática contraria as orientações pedagógicas e levanta dúvidas sobre a consistência da formação prática.
De acordo com o responsável, outro aspecto crítico identificado é o desfasamento entre a teoria e a realidade vivida nas escolas de aplicação, um problema recorrente na formação prática dos futuros docentes.
“Os estudantes, durante a formação, estão aqui na escola, estão a lidar com a teoria e, quando começam os estágios, observa-se que há muita coisa diferente. Uma coisa é aprender a teoria, outra coisa é, no terreno, perceber que há teorias que não correspondem à realidade em que se está inserido.”
Segundo Alexandre Cristóvão, a insuficiência de professores orientadores resulta num desequilíbrio, com mais de 200 estudantes em estágio a serem acompanhados por menos de 30 supervisores.
“O rácio supervisores/estagiários ultrapassa frequentemente o recomendado, o que limita o acompanhamento individualizado e efectivo dos futuros docentes. Associado a este problema, regista-se ainda a ausência ou fraca presença de professores tutores em algumas escolas de aplicação. Em vários casos, os estagiários acabam por assumir turmas sem o devido acompanhamento contínuo, o que fragiliza o processo de supervisão e a consolidação das competências práticas”, lamenta.
No Magistério Kimamuenho, na província do Bengo, a prova de aptidão profissional continua a ser o principal instrumento de avaliação final dos futuros professores. O exame visa aferir se os candidatos possuem competências suficientes para assumir uma turma de forma autónoma, conforme estabelece o Decreto Presidencial n.º 273/20, numa avaliação que incide sobre várias dimensões, desde o domínio do conteúdo até às competências didácticas e à postura profissional.

No domínio cognitivo, o candidato é avaliado quanto ao conhecimento da disciplina ou especialidade em que está a ser formado, seguindo-se uma avaliação do ponto de vista procedimental, com vista a aferir as capacidades e habilidades que desenvolveu ao longo dos quatro anos de formação.
A colocação dos estudantes estagiários nas escolas de aplicação resulta de um processo de planificação que tem em conta o número de finalistas, 273 da 13.ª classe neste ano, e a distribuição geográfica das instituições de ensino na província do Bengo.
André Canda, professor de Língua Inglesa e primeiro vogal da banca de defesa, revela que os critérios mais determinantes na avaliação têm em conta a aula magna, sobretudo a comunicação, ou seja, “ver como o estudante comunica com os alunos, tendo em conta que o processo de ensino-aprendizagem é um processo de diálogo e é fundamental que o professor consiga articular os conteúdos a serem abordados em sala de aula com aquilo que os alunos já sabem, para que haja envolvimento e participação activa durante a aula”.
O docente acrescenta que a prova de aptidão profissional “não garante a qualidade da aula, mas contribui para a formação docente, sendo o resultado de todo o processo de formação do professor na Escola de Magistério Kimamuenho, funcionando como uma demonstração do que foi desenvolvido nas disciplinas de práticas pedagógicas e, sobretudo, no estágio supervisionado na escola de aplicação”.
Para a banca avaliadora, a prova de aptidão profissional constitui um momento de verificação metodológica e de demonstração prática das competências adquiridas ao longo do estágio, permitindo aferir a capacidade do candidato em conduzir uma aula de forma estruturada e autónoma.
José Manuel, outro docente ouvido pelo RECURSO, explica que, na qualidade de professor de Geografia e primeiro vogal da banca, costuma avaliar essencialmente as questões metodológicas e os conhecimentos associados à aula magna, para perceber se o estudante tem capacidade de orientar uma aula. Estes requisitos são avaliados com base nos elementos apresentados pelo candidato.
Para o docente, a prova de aptidão profissional não garante a qualidade do professor, mas é antes um instrumento de avaliação do percurso realizado na escola de aplicação, com o estudante a sintetizar, em cerca de 30 minutos, tudo o que desenvolveu ao longo do estágio.
“Não deve ser vista como garantia de qualidade, mas sim como um momento de verificação do processo formativo.”
Os estudantes finalistas da 13.ª classe da Escola de Magistério Kimamuenho ouvidos pelo RECURSO reconhecem que o estágio profissional foi determinante para a sua preparação como futuros docentes, apesar das dificuldades enfrentadas nas escolas de aplicação, que vão desde limitações de infra-estruturas até desafios pedagógicos e linguísticos.
Domingos Sambongu, finalista da 13.ª classe na especialidade de Língua Portuguesa e Educação Moral e Cívica, afirmou que, de acordo com as experiências vividas na sala de aula ao longo dos meses de estágio, acredita estar preparado para ser “um excelente” professor.
“O que foi mais difícil para mim no estágio foi dar aulas. O relatório foi algo muito fácil, porque já tive experiência a partir de outros finalistas”, assume Sambongu.

A experiência prática tem sido apontada como um momento decisivo no processo de formação, permitindo a aplicação dos conhecimentos adquiridos em sala de aula e a adaptação à realidade do ensino.
Por isso, Cecília Kanyangu, finalista da especialidade de Geografia e História, diz-se preparada para assumir uma turma após o estágio, embora tenha enfrentado obstáculos no processo de aprendizagem prática.
“O estágio preparou-me muito bem para assumir uma sala de aula. O que foi mais difícil foi escrever no quadro, porque não tenho uma caligrafia tão bonita. Também encontrei dificuldades na escola de aplicação, como falta de carteiras, ausência de pessoal de limpeza e segurança, entre outras, mas consegui superar essas dificuldades”, referiu.

Também David Kilende, finalista da especialidade de Língua Francesa e Educação Moral e Cívica, destaca o impacto positivo do estágio na sua formação, sublinhando o contacto directo com a realidade escolar como um elemento “essencial” para o seu crescimento profissional.
“Graças ao estágio, pude lidar com a prática e aprendi muita coisa real. O mais difícil foi fazer o relatório, porque tinha de procurar vários dados e organizar a conclusão”, explica, acrescentando ainda que o ensino da língua francesa representou um dos maiores desafios, devido ao nível de domínio dos alunos.
“Também enfrentei dificuldades na língua francesa, pois não é uma disciplina dominada pelos estudantes, o que exigiu a criação de métodos para facilitar a aprendizagem, mas conseguimos superar.”






