
Há um professor e dois alunos entre os 29 mortos por deslizamento de terra numa mina ilegal no Bengo. RECURSO visitou aldeia das vítimas e deparou-se com casos de jovens que ainda insistem em trocar os estudos pelo garimpo em minas de ouro: “Meus amigos a comprar motas, roupas novas, porque é que vou andar nove quilómetros a pé para estudar?”
Na tradição africana, um cenário de óbito é um local de gritos, mas, nas aldeias de Kisakala, Kifula e Cayenge, na província do Bengo, há um silêncio pesado. Há quem o explique com o facto de se tratar de uma tragédia anunciada. Outros ainda referem que é o efeito paralisador do elevado número de mortos, que se contam às dezenas. Não há ainda um inquérito, mas é um dado oficial de que 29 pessoas morreram no último sábado, 23, em consequência de um deslizamento de terra de que fez colapsar uma mina ilegal de ouro no Bengo.
Em visita às aldeias em que viviam algumas das vítimas, o RECURSO inteirou-se de três histórias que se entrelaçam num único ponto: a sala de aulas. Um professor, que conciliava a docência com actividades na mineração artesanal, numa tentativa de complementar o rendimento familiar; e dois alunos que já há muito davam sinais de terem trocado definitivamente os livros e cadernos pela enxada e pá.
Na aldeia de Kisakala, por exemplo, o senhor Francisco Adão Domingos ainda tenta lidar com a dor da morte do filho, Adão Domingos, de 23 anos, estudante da 8.ª classe, vítima do desabamento. O jovem, descrito pela família como calmo e trabalhador, foi abandonando a escola aos poucos, até se integrar na exploração ilegal de ouro, na tentativa de melhorar as condições de vida em casa.
“Eu não tinha condições de lhe manter na escola. O campo não chega para sustentar um filho até ao ensino médio”, lamenta o pai, em declarações ao RECURSO.
Segundo Francisco Adão Domingos, a história do filho não é única. “Há muitos que deixam a escola e vão para o ouro ou para a lavra.”
Ao que apurou o RECURSO, por trás dos números de mortos envolvendo jovens, há todo um vasto historial de abandono escolar, motivado pelas longas distâncias até às escolas, factor que empurra muitos deles para o garimpo ilegal de minas, com as consequências que se conhecem. Na região, após a 6.ª classe, muitos estudantes precisam deslocar-se para outras localidades, como Canacassala.

Sebastião Bernardo também perdeu o filho na tragédia. Bernardo João, de 23 anos, frequentava a 8.ª classe, mas já dividia o tempo entre a escola, a lavra e as minas ilegais. “Ele praticamente já não estudava. Uma vez ia à escola, outra vez não”, conta o pai.
Na sexta-feira, 22, dia anterior ao desabamento, o jovem saiu de casa sem avisar. A família iniciou buscas durante a noite, sem sucesso. No sábado, 23, de manhã, chegou a confirmação devastadora: Bernardo João estava entre os trabalhadores soterrados.
“Quando soube que ele tinha ido para a mina, já era tarde. Nunca pensei perder o meu filho assim”, desabafa o pai, visivelmente abalado.
Entre os mortos está também o professor Henriques Filipe, conhecido como “Professor Brota”, docente da Escola Primária Comandante Bondua nº 3618, no município do Nambuangongo. Com 45 anos de idade e residente na aldeia do Kifula, o professor conciliava a docência com actividades na mineração artesanal, numa tentativa de complementar o rendimento familiar. A sua morte gerou consternação entre colegas e moradores, reacendendo o debate sobre as condições de vida dos profissionais da educação.
“Eu não vou à escola desde o mês passado. Saí porque os meus amigos já estavam no ouro.”
A frase é dita em voz baixa por um jovem de 20 anos da aldeia de Cayenge, que pediu anonimato. Frequentava a 8.ª classe na escola da Pedreira, mas abandonou os estudos para trabalhar nas minas de ouro do Ngolosako.

Sentado à porta de casa, ao lado da motorizada comprada com dinheiro da mineração ilegal, o jovem conta ao RECURSO que bastou um mês de trabalho para realizar o sonho que a escola nunca lhe deu perspectiva de alcançar.
“Comprei essa mota com dinheiro do ouro. Há dias em que conseguimos 400 mil kwanzas. Na lavra ou na escola isso não acontece”, afirma.
Segundo o jovem, a realidade em Cayenge empurra dezenas de adolescentes e rapazes para as minas clandestinas. Muitos percorrem quilómetros para estudar e acabam desistindo diante das dificuldades.
“Aqui você escolhe: lavra ou mina. Muitos escolhem a mina porque o dinheiro aparece rápido.”
Apesar do dinheiro fácil e das rápidas mudanças que a actividade de mineração ilegal proporciona nas suas vidas, o medo passou a dominar o quotidiano dos jovens após a tragédia do dia 23. O desabamento que matou dezenas de garimpeiros expôs de forma dura os riscos constantes a que estavam sujeitos, levando muitos a questionarem a continuidade dessa actividade e a interromperem temporariamente o regresso às minas, agora marcados pela incerteza, pela insegurança e pelo receio de novas perdas humanas.
“Agora estamos em casa. Depois daquela morte toda, ninguém quer voltar já”, confessa.
Pedro Quizembe, de 21 anos, também abandonou a escola para entrar no garimpo. Frequentava a 9.ª classe, mas viu uma oportunidade de mudar de vida e não hesitou.

“Meus amigos a comprar motas, roupas novas, porque é que vou andar nove quilómetros a pé para estudar?”
Pedro conta que conseguiu construir a casa da mãe e comprar duas motorizadas graças ao ouro extraído ilegalmente.
“Na lavra trabalhamos muito para ganhar 30 ou 40 mil kwanzas. Na mina, num único dia, podes conseguir mais de um milhão, depende da sorte”, relata.
A longa distância entre as aldeias e a escola também se tornou um dos factores determinantes para o abandono escolar. Em muitos casos, os estudantes são obrigados a percorrer vários quilómetros diariamente, enfrentando dificuldades de transporte, falta de condições básicas e cansaço físico, o que acaba por desmotivar a continuidade dos estudos. Para vários jovens, este esforço diário, aliado à pobreza e à promessa de ganhos rápidos nas minas, acaba por pesar na decisão de deixar a sala de aula.
“Saía de casa às cinco horas para chegar na escola às nove. A minha mãe está numa cadeira de rodas e eu precisava sobreviver”, revela Pedro Quizembe.
Mesmo assim, Pedro ainda alimenta o desejo de regressar aos estudos, consciente de que a educação pode abrir caminhos mais estáveis e seguros no futuro. Apesar de ter encontrado na mineração uma forma rápida de rendimento, reconhece os riscos da actividade e afirma que pretende retomar a escola, caso consiga melhores condições de vida e uma oportunidade que lhe permita conciliar a sobrevivência com o sonho de concluir a sua formação.
“Quero ir para Luanda estudar. Sei que a mina é perigosa, mas é lá onde sai dinheiro rápido.”






