Ainda paira sobre o pensamento de alguns intelectuais (por razões que, a nosso ver, parecem não bem definidas) a afirmação de que um formado em Língua é necessariamente um linguista, havendo ainda quem vai mais além, dizendo que as instituições de ensino superior, ligadas às Ciências da Educação, não formam linguistas, apesar de, nos seus planos curriculares, constarem cursos de Linguística.
Reforçam que tais instituições formam apenas professores de Língua, pelo que os linguistas são formados apenas pela extinta Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto (FLUAN), hoje Faculdade das Humanidades da Universidade Agostinho Neto (FHUAN).
Antes de procurarmos responder à questão de partida, queremos aproveitar o momento para apresentarmos o nosso parecer relativamente à discussão que se impõe sobre “a pertença” do adjectivo relacional homogéneo “linguista” entre os formados pelos “ISCED’s” versus pela FHUAN.
A FHUAN, diferente dos ISCED’s e demais escolas superiores pedagógicas, é a única instituição pública de Angola que ministra cursos de Línguas e Literaturas (Francesa, Inglesa, Africana e Portuguesa) cujo perfil de saída não outorga professor (?). As restantes instituições públicas que ministram estes cursos acarretam, no seu plano curricular, conteúdos programáticos que possibilitam aos seus estudantes um perfil de saída para o professorado e a investigação.
Quanto às instituições privadas, a Universidade Jean-Piaget, à semelhança das outras instituições públicas já citadas, também reúne planos curriculares que dotam aos estudantes destes cursos (apesar da ligeira diferença designativa) ferramentas capazes de enfrentarem os desafios do professorado, o que não acontece taxativamente na Faculdade de Ciências Humanas da UCAN (Universidade Católica de Angola) e na UMA (Universidade Metodista de Angola), respectivamente.
Partindo dos dois parágrafos anteriores, o perfil pedagógico dos provenientes das instituições superiores de formação de professores (face ao adjectivo em causa “linguista”) gera, para alguns, certo nível de inquietação, conforme já nos referimos no primeiro parágrafo.
O homem não é o único ser que comunica, porque os outros animais também o fazem, embora nos diferentes moldes. Todavia, o homem, por ter capacidades comunicáveis acrescidas, usa diferentes moldes para, efectivamante, usufruir deste dote comunicativo, sendo a linguagem o meio por excelência da comunicação, que antes da invenção da escrita foi divinizada como um dom especial de “um deus”.
Sendo o português uma língua flexional, na sua classificação quanto ao tipo, é natural que, no seu uso, a polissemia ganhe destaque elevado, o que também acontece nas demais línguas com a mesma classificação. Daí que o termo “linguagem”, nos nossos dias, ganha extensão semântica como tal, deixando de limitar-se apenas ao homem. Na linguagem informática, usa-se a chamada “linguagem de programação” e, na Psicologia, “linguagem corporal”, por exemplo.
Não interessa à Linguística estudar, como tal, os outros tipos de linguagem, senão a linguagem humana, nascendo assim o conceito célebre de que “a Linguística é o estudo científico da linguagem humana”.
Alguns associam o ser linguista ao ser poliglota. Este é o indivíduo que fala mais de três línguas, ao passo que aquele é o indivíduo formado ou versado em matéria Linguística, perquirindo, no sentido de encontrar soluções de certos problemas atinentes à língua natural e descobrir como a linguagem funciona através de estudos de línguas específicas, quer por meio da fala, quer por meio da escrita.
Por exemplo, para um normativista, ou alguém que “conheça a língua” apenas por meio da gramática na perspectiva prescritiva, a expressão “ESTEJE”, como tentativa de conjugação do verbo “ESTAR” no presente do conjuntivo, em vez de “ESTEJA”, pode constituir um acto de vilipêndio, enquanto o linguista levanta a hipótese de que a gramática internalizada que qualquer indivíduo possui de forma natural lhe concede a intuição de que os verbos da primeira conjugação possuem a desinência modo-temporal “-e“ (amar=ame, falar=fale, estudar=estude, etc.) e não “-a”, por ser desinência modo-verbal dos verbos da segunda e terceira conjugações (com as devidas excepções).
Esta intuição não é consequência de algum conhecimento normativo da gramatica. É consequência da língua natural, cabendo aos “conhecedores da gramática” entenderem que o verbo estar se desvia desta regra. Logo, linguisticamente falando, não são os “falantes do ESTEJE” que fogem da norma, mas sim o próprio verbo (ESTAR) é que infringe a construção mórfica dos verbos da primeira conjugação, cuja desinência modo-temporal já foi expressa.
Outro exemplo é, no caso de um julgamento, o réu prestar algumas declarações inconscientemente confitentes. Enquanto os especialistas em Direito analisam os fenómenos jurídicos, os linguistas podem-se intervir, analisando os traços discursivos da pessoa em causa, partindo das particularidades linguísticas dos avaliados, através de um breve teste psicolinguístico ou grafológico, quando envolve a escrita.
Há muitos exemplos para demonstrarmos, como modularidade da linguagem nos mais diferentes módulos, nos processos cognitivos e na interacção dinâmica entre tais módulos e a questão das clivagens. Porém, preferimos deixá-los para as próximas abordagens. Sem exclusividade, as instituições de ensino superior que ministram o curso de Língua, apesar de certas observações, dotam aos estudantes conjunto de conhecimento, habilidades, atitudes, valor e emoções que lhes permite fazerem pesquisas científicas no ramo da Linguística. Logo, qualquer uma destas instituições pode ou não lançar linguista.
Infelizmente, nem sempre os formados provenientes destas instituições acabam sendo linguistas, limitando-se apenas no ensino da gramática, na revisão de textos e nas produções textuais voltadas à norma gramatical. Como dissemos no artigo anterior sobre o Ensino da Língua, há muitos “analistas morfossintacticistas” e poucos linguísticas.
Ser linguista não é uma questão de ter concluído a formação superior em Língua. É um acto de comprometimento com os estudos linguísticos, dando resposta aos problemas linguísticos nas mais diversas perspectivas, em vez de se confinar simplesmente na noção do certo e errado. Este acto também pode ser feito em sala de aulas.
Há de facto, linguistas comprometidos com a ciência da linguagem, que reconhecem no povo o mando da língua, conforme o professor Alberto Salembe nos brinda com este título na sua mais recente obra, aos quais devemos o reconhecimento pela dedicação.
Logo, o linguista é um estudioso da língua, não efectivamente o formado em Língua por uma das instituições do Ensino Superior, embora tal formação “seja credencial”. Logo, é imperioso que este, mais do que ter certificado, seja um comprometido persistente na busca de explicações e compreensões dos fenómenos linguísticos ou possível soluções dos problemas linguísticos.






