Sem laboratório na Cacula, professor reutiliza garrafas de plástico para criar foguetes e ensinar física na prática

No Liceu 1706, na Cacula, província da Huíla, o professor Edson Lucala aliou a criatividade à reciclagem para transformar conceitos teóricos em prática. Junto dos seus alunos, desenvolveu um protótipo de foguete de água de baixo custo que ilustra leis da física.

A física é vista por muitos estudantes como um bicho-de-sete-cabeças, aparentemente cheia de fórmulas abstractas e teorias distantes da realidade. No município da Cacula, o professor Edson Lucala, licenciado pelo ISCED-Huíla e com 16 anos de docência, encontrou uma forma de mudar essa percepção. 

“Nós criámos um meio didáctico que permite-nos tirar alguns conceitos de física que muita das vezes nós ensinamos ao aluno de forma teórica, mas com a ideia desse foguete permite-nos visualizar aquilo que eles vêem nos manuais”, explica o docente.

A falta de infra-estruturas escolares foi o motor para a inovação pedagógica. Diante de ausência de salas equipadas para experiências, o professor recorreu à imaginação e à sustentabilidade. 

“Desenvolvemos ele como meio de ensino que é usado a nível do liceu, visto que nós não temos laboratórios que nos permitem conciliar a teoria com a prática, daí que entra em muitos momentos a criatividade do professor”, partilha Edson Lucala. 

A solução passou por materiais reciclados e de baixo custo, como garrafas de refrigerante de dois litros, cartolina, fitas adesivas, tubos de PVC, válvulas de motorizada e pequenas rochas para o contrapeso.

O projecto, construído em parceria com os estudantes, serve de ponte prática para três anos de escolaridade. Na 10.ª classe, o foguete ajuda a interpretar a conservação da energia mecânica e a lei dos gases ideais. Na 11.ª classe, torna visível a terceira lei de Newton (acção e reacção). Já na 12.ª classe, o protótipo facilita a compreensão da mecânica de fluidos e do lançamento de projécteis. O funcionamento é simples: adiciona-se água ao interior da garrafa, injecta-se ar com uma bomba manual para aumentar a pressão e armar a energia potencial, libertando-se depois o foguete através de um gatilho.

Mais do que ensinar fórmulas, o objectivo central desta metodologia é a autonomia e o desenvolvimento do pensamento científico dos jovens angolanos, orientado no sentido de criar para que no final eles pudessem ter a capacidade individual para desenvolver esse e outros projectos. 

Para o docente, a criatividade do professor angolano surge como uma ferramenta essencial de sobrevivência pedagógica face às carências estruturais do país. “Há quem vai olhar para este projecto e dizer que noutros países não é novidade ou inovação, mas até um certo ponto a criatividade é a nossa única esperança”, defende. 

Edson Lucala conclui com um apelo à classe: “se for somente para esperar condições laboratoriais nas nossas escolas, vamos ver que o nosso ensino vai continuar cada vez mais atrasado. Cabe a nós fazer a nossa parte, porque ensinar física não é só resolver exercícios, é além disso”.

Autor

Um Comentário

(Esconder Comentários)
  • Edson Lucala

    Maio 29, 2026 / at 9:51 pmResponder

    A matéria ficou perfeita, e desde já agradeço pela divulgação e o apoio, que o vosso jornal continue crescendo em todas áreas

Leave a Reply

Siga-nos
Regista Pesquisa
Mais Lidas
Loading

Entrando 3 segundos...

Discover more from Recurso

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading