
No Panguila, província do Bengo, há moradores a tirar carteiras das salas de aulas para lhes darem uso pessoal. Autoridades entraram em cena e recuperaram centenas de materiais. Abordado pelo RECURSO, quem pratica tais actos desculpa-se com explicações… inusitadas.
Uma operação inédita de recuperação de carteiras devolveu à rede pública do município do Panguila, província do Bengo, mais de 300 carteiras escolares que a própria comunidade havia retirado ilegalmente das salas de aula.
A iniciativa, liderada pela Direcção Municipal da Educação, com apoio da Polícia Nacional e da Administração Municipal, foi motivada por denúncia na comunidade e pelo agravamento de um problema que há anos compromete o acesso a uma educação digna: o facto de em várias escolas da localidade muitos alunos serem obrigados a compartilhar carteiras ou assistir às aulas sentados no chão.
“Nos primeiros 100 dias de exercício das nossas funções, constatámos várias debilidades, mas a mais preocupante foi a falta de carteiras em muitas escolas”, explica ao RECURSO Narciso Maquiesse, o responsável pela Educação do Panguila.
O diagnóstico mostrou que boa parte das carteiras desaparecidas estavam em residências, estabelecimentos comerciais, igrejas e até centros de explicações comunitárias.
O histórico da campanha e as justificações da comunidade
Em Maio de 2025, a Direcção Municipal da Educação lançou uma campanha porta a porta de recuperação de carteiras, realizada principalmente aos sábados, quando os encarregados de educação estão em casa. No primeiro dia, 56 carteiras completas e 16 armações metálicas foram devolvidas às escolas.
A campanha sofreu uma pausa temporária devido à escassa cobertura policial, mas, com a entrada do novo administrador municipal, João Domingos Lourenço, as operações foram retomadas com maior segurança e coordenação. Desde então, neste ano, o trabalho passou a abranger os sectores 8, 9, 10 e 11, considerados os mais afectados pelo vandalismo.
Com a intensificação das operações, mais de 300 carteiras foram recuperadas, e a população começou a colaborar voluntariamente. “Houve encarregados de educação e até crianças que trouxeram carteiras por iniciativa própria”, revela Narciso Maquiesse.
Denúncias sobre carteiras ainda em posse de terceiros também começaram a chegar às autoridades. E ao RECURSO, ainda que recusando dar explicações detalhadas, há moradores a revelar as razões por que tinham entrado neste esquema. “Comprei a carteira sem saber que era da escola”, diz um morador que prefere ser identificado apenas como senhor João.

Já Ana Caiato, outra moradora envolvida na polémica, conta ao RECURSO que os seus filhos levaram para casa carteiras que estavam abandonadas na rua, usando-as para os deveres de casa.
Mas há também casos inusitados, como o de moradores que, numa espécie de “empréstimo”, retiravam carteiras das salas de aula para as utilizarem em reuniões comunitárias, mas nunca as devolviam. A equipa da direcção municipal chegou a encontrar 12 carteiras numa igreja local. O responsável alegou ter comprado o material, mas as autoridades não têm dúvidas: trata-se mesmo de equipamento escolar, pelo que o responsável da igreja foi orientado a devolver o material à escola.
Além das carteiras, escolas do município sofrem furtos de quadros escolares, cabos elétricos, lâmpadas, materiais laboratoriais e até aparelhos de ar condicionado, como no Complexo Escolar n.º 384, vulgo “Brasileiros”, no sector 4.
Para a Direcção Municipal da Educação, que lamenta que as acções da comunidade agravam os custos do Estado e comprometem directamente a qualidade do ensino, a campanha de recuperação no Panguila é “um passo decisivo na sensibilização da comunidade sobre o impacto do vandalismo”.
“Com diálogo, fiscalização e cooperação, estamos a recuperar o que é de todos e a ensinar que escolas públicas devem ser respeitadas”, concluiu o director Narciso Maquiesse, sem considerar, para já, a possibilidade de exigir responsabilidade criminal aos implicados.






