Dificuldades para pagar as propinas obrigam estudantes a abandonar ensino superior

Há estudantes do ensino superior que não conseguem sequer avançar para o segundo ano da formação devido à dificuldade com a propina. Depoimentos recolhidos pelo RECURSO expõem desistências e frustrações que alguns classificam como “situação dramática e alarmante” para o País. Bolsas seriam uma solução, mas o instituto público que vela sobre o assunto oferece, em média, uma bolsa para cada 33 estudantes.  

Teresa Camassa e Virgílio Gabriel vivem em cidades diferentes, mas partilham o mesmo dilema: ambos abandonaram os estudos devido à falta de condições para pagar a propina. Virgílio Gabriel, por exemplo, natural e residente do Namibe, até chegou a concluir, em 2023, o 3.º ano do curso de Comunicação Social da Universidade Gregório Semedo, mas, no ano seguinte, não teve ‘bolsos’ para continuar a lutar pelo sonho do canudo, porque os 30 mil kwanzas da propina mensal se tornaram insustentáveis. “Com muito esforço e dedicação, consegui ingressar no ensino superior, mas, infelizmente, em 2024, fui obrigado a interromper os meus estudos, porque os meus pais já não me conseguiam ajudar, e os meus esforços pessoais não davam mais resultados”, conta Virgílio Gabriel, que tem as suas queixas reforçadas por Teresa Camassa, estudante que, sem sucesso na tentativa de ingressar no ensino publico, também se viu forçada a desistir dos estudos justamente no ano em que frequentaria o 4.º ano numa universidade privada. 

Virgílio Gabriel | Foto: DR

Mas abandonar a formação devido à falta de dinheiro não é problema exclusivo de Teresa e Virgílio. Entrevistas prestadas ao RECURSO por estudantes universitários revelam que a asfixia financeira , agravada pela falta de emprego, pode ser a principal barreira para a conclusão dos estudos. Conforme apurou este jornal, mediante uma ronda por algumas instituições de ensino superior para saber das expectativas dos estudantes em relação ao início do segundo semestre de aulas, há quem preferisse que as férias nunca tivessem fim, para não ter de lidar com a frustração de abandonar a sala de aulas devido à incapacidade de honrar o pagamento das propinas. 

Leonilde de Jesus | Foto: DR

É o caso de Leonilde de Jesus que, aos 24 anos, está a um fio de desistir da formação em Comunicação Social pela Universidade Gregório Semedo no Lubango. Actualmente a frequentar o 2.º ano, Leonilde, que é desempregada, ainda enfrenta o desafio de dividir os esforços entre gerir a situação académica e criar um filho menor. 

“Sou mãe solteira e sou filha de mãe viúva. Faço de tudo para conseguir algum dinheiro, juntando com o pouco que a minha mãe me dá quando tem, para pagar as propinas”, explica Leonilde de Jesus. 

Aguentar o I semestre para desistir no II 

Na província do Namibe, apurou o RECURSO, a vontade de se formar entre os jovens é aguçada, apesar das adversidades. Emília Nambuya Capires, estudante de Direito, é exemplo disto mesmo. A jovem já desistiu duas vezes da universidade por falta de condições financeiras, mas, em 2024, recomeçou a estudar no Instituto Gregório Semedo. Mesmo sem condições para pagar a propina, insistiu no sonho da formação, tendo conseguido, por um semestre daquele ano, adiar um negativo desfecho há muito anunciado. 

“Paguei as propinas no primeiro semestre, mas, no segundo semestre, as dificuldades apertaram demasiado. Infelizmente, tive de anular o ano académico e desisti pela terceira vez”, lamenta Emília Capires, que, em todo o caso, assegura manter o foco e não descarta engendrar uma quarta tentativa. 

Emília Nambuya Capires | Foto: DR

António Cinco Reis Waia, estudante de Direito, não tem o historial de desistência e recomeços de Emília, mas já reconhece os ‘sintomas’ de um problema de que dificilmente se verá livre, uma vez que, conforme o próprio admite, enfrenta “grandes dificuldades” para poder custear os pagamentos mensais, aos quais são acrescidos 5 mil kwanzas (passa de 30 para 35 mil Kz) quando se verifica um atraso de 10 dias. 

“Comecei a frequentar a universidade recentemente, e já tenho multas devido a propinas em atraso”, lamenta António, revelando que, ainda assim, está “determinado a lutar pela vontade de estudar”.

Professor fala em situação “alarmante”

Para Pedro Tchikambi, docente do Instituto Superior Politécnico Católico de Benguela, não é normal num país com magnitude em recursos naturais como Angola haver “tanta miséria e falta de oportunidade para os jovens”. O professor entende que o Estado deve analisar, corrigir e organizar políticas reais e eficazes que ajudem os jovens a formarem-se e, consequentemente, criarem o seu próprio futuro. “Não podemos normalizar um estudante universitário desistir dos estudos; é alarmante”, avisa.

António Cinco Reis Maia | Foto: DR

De acordo com Pedro Tchikambi, o registo de estudantes que abandonam a formação devido à falta de dinheiro para arcar com as propinas revela “o quão mal estamos” enquanto País no que toca a políticas públicas. O docente relata “casos dramáticos” e avisa que a situação tenderá a piorar, visto que, para o ano académico 2025/2026, as instituições do ensino privado foram autorizadas a um ajuste de até 20,74% no valor das propinas, acompanhando a inflação. Tratando-se do terceiro ano consecutivo em que se regista aumentos no valor das propinas, Pedro Tchikambi não tem dúvidas de que muitos estudantes vão seguir o caminho dos que aqui contaram a sua história, pois os preços actuais praticados pelas universidades ultrapassam a capacidade de poupança das famílias angolanas.

Bolsas: pouca oferta para tão elevado número de estudantes 

Para estudantes sem condições para arcar com as propinas, o recurso a bolsas de estudo poderia ser uma mais-valia, mas o grande desequilíbrio entre a oferta e a procura tem levado a que muitos estudantes não se candidatem sequer. Por exemplo, para o ano académico 2025/2026, o Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE) disponibilizou 10.500 bolsas, sendo 10 mil para cursos de graduação e 500 para pós-graduação. E tendo em conta que as últimas estatísticas actualizadas sobre o ensino referem que este subsistema conta com 335 mil estudantes, em média, cada bolsa do INAGBE é disputada por 33 estudantes.

Até ao momento, os bolseiros do INAGBE recebem a quantia mensal de 55 mil Kz para cursos de graduação e 100 mil Kz para pós-graduação. Para o presente ano académico, o processo de renovação e candidaturas a novas bolsas decorreu entre 26 de Setembro e 14 de Outubro de 2025. 

Autor

Leave a Reply

Siga-nos
Regista Pesquisa
Mais Lidas
Loading

Entrando 3 segundos...

Discover more from Recurso

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading