Implicações didáctico-pedagógicas da Bíblia Sagrada no ensino da Língua Portuguesa

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Há seis dias, os media internacionais e alguns nacionais, com destaque para a TV Zimbo, através da sua página de informação do Facebook, veicularam a notícia, segundo a qual a Bíblia Sagrada passaria a fazer parte das leituras obrigatórias do ensino Público no Estado do Texas – EUA, medida aprovada pelo Conselho de Educação do referido território. Como era de se esperar, tal notícia dividiu opiniões não apenas de estadunidenses e outros, como também, especificamente, de internautas angolanos que tiveram acesso à informação. 

O presente artigo possui interesse em trazer à tona um parecer favorável sobre o uso da Bíblia no ensino formal, através de uma breve análise, já que, sobre este assunto, há, em carteira, um estudo mais extensivo, no qual estão reunidos mais detalhes capazes de servirem de subsídio para melhor compreensão deste parecer, bem como apresentação de estratégias didáctico-pedagógicas para o uso da Bíblia no ensino da Língua Portuguesa, sem colocar em risco a separação entre o Estado e a Igreja.

Apesar de o artigo 8º da Lei De Bases Do Sistema De Educação E Ensino, de 2016, consagrar o sistema de ensino como laico, dados estatísticos, através do censo populacional realizado de 19 de Setembro a 20 de Dezembro de 2024, apontam que, no universo de 34 492 888 da população angolana com dois ou mais anos de idade, 27 516 828 desta população (divididos entre católicos e protestantes), correspondente a 79,1%,  professa a religião cristã, tendo a Bíblia como fundamento da fé, leva-nos a crer que maior parte dos cidadãos angolanos, de forma geral, e dos alunos do II Ciclo, de forma especial, possui uma Bíblia ou tem facilidade de encontrá-la com maior facilidade.

O estado laico não anula o uso da Bíblia na perspectiva científica. Pelo contrário, já vários estudos, com particularidade nas Letras, foram desenvolvidos, tendo a Bíblia como corpus (à nota de exemplo, citamos Uma análise pedagógica de provérbios de Salomão, de Igor da Silva Miguel; A Bíblia como literatura no Brasil, de Anderson de Oiveira; A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter; Guia literário da Bíblia, de Robert Alter e Frnak Kermode). Visitando a Literatura Clássica Universal, encontraremos famosas produções literárias que tiveram a Bíblia como parte do campo de oficina, como o soneto camoniano Jacó e RaquelO Peregrino, de Jonh Bunyan, e Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, só para citar algumas. 

Caso estas obras não sejam suficientes, por nossa abordagem voltar-se à educação e ensino, fazemos referência à obra Didáctica Magna, de Comenius, o conhecido primeiro tratado da arte universal de ensino. Curiosamente, o autor começa o desenvolvimento da sua obra com uma visão paralela entre o homem e o Paraíso, citando Génesis 2:15, além de outras citações bíblicas apresentadas. Ou seja, a educação e ensino, enquanto sistema, deve o reconhecimento à Bíblia Sagrada como base da construção do primeiro tratado da arte universal de ensino.

Nesta linha de pensamento, o parecer favorável do uso da Bíblia como recurso didáctico no sistema de ensino formal está alicerçado nos princípios abaixo mencionados:

  1. Acessibilidade:      Sendo a Bíblia um livro de fácil acesso pela maioria estudantil, haveria melhor ganho da parte dos professores, se aproveitassem a situação para transmitirem os conteúdos atinentes à Língua Portuguesa, partindo do conhecido (o texto bíblico, claro, sem pôr em causa a laicidade do ensino) para o desconhecido, conforme propõe Sócrates, citado por Haydt (2011);

Esta opinião não acontece gratuitamente, nos dizeres de Todorov, pois constitui descrição de uma experiência pedagógica adoptada na carreira, enquanto professor de Língua Portuguesa, nos cursos de Formação de Professores Para Magistério Primário e Formação de Professores Para o Pré-Escolar, pois, ao relacionar alguns textos proverbiais em determinados temas propostos pelo programa do ex-INIDE, hoje INADE, sem revelar a fonte, a Bíblia, os alunos foram desafiados a apresentarem valores semânticos desprendidos da ordem denotativa, com conotação marcada pela presença dos nexos metafóricos, o que lhes suscitou uma preocupação de extracção de juízo de valores, através das suas capacidades de desmontagem e entendimento do discurso confrontado no texto. A partir desta inferência, trazemos esta abordagem, a fim de servir de pistas para uma possível inclusão da Bíblia Sagrada no Sistema de Ensino Formal.

  • Disponibilidade: Devido, principalmente, às dificuldades financeiras por que enfrentam vários alunos do ensino formal público, tem-se registado carência de meios de ensino, até permanentes (sublinhe-se!), dificultando na gestão de tempo em sala de aula, no processo de ensino-aprendizagem e no bom rendimento pedagógico dos alunos, simultaneamente, pelo que a Biblia, pelas razões apresentadas no Princípio à Acessibilidade, reduziria significativamente as dificuldades na carência de meios de ensino, por ser um livro de base da fé cristã, grupo religioso com uma adesão de quase de 80% da população angolana, pois cremos haver, para o aluno, mais facilidade de levar à escola uma Bíblia Sagrada em relação a muitos outros textos, infelizmente, não por mero capricho, mas, na maioria dos casos, por dificuldades financeiras de adquiri-lo.  
  • Igualdade: O facto de a Bíblia ser usada, em princípio, por um grupo religioso específico (cristão), no qual maior parte da sociedade angolana se revê, não significa que deva ser colocada à margem da comunidade estudantil, quando, na verdade, não só esta comunidade (embora não seja em porção absoluta) a usa, como também alguns textos bíblicos podem ser enquadrados nos conteúdos programáticos, elaborados pelo INADE, sem infringir o princípio do ensino laico. Na eventualidade de ela ser acusada como um livro mitológico ou ficcional (como já tem acontecido), ainda assim pensamos que isso não anularia a sua importância enquanto um possível instrumento de ensino. Afinal, se fazem parte dos meios de ensino da Língua Portuguesa alguns textos ficcionais e mitológicos, por que não incluiríamos a Bíblia?

Impacto académico:

  • Susceptibilidade na exploração dos textos para o ensino da Língua Portuguesa nas componentes paremiológicas, contracções e combinações pronominais (principalmente nos evangelhos), sintácticas (principalmente nas funções sintácticas de objectos directos ou indirectos pleonásticos e objectivos directos proposicionados, quer numa construção frásica simples quer numa construção frásica composta por subordinação substantiva objectiva directa), escrita criativa, citando apenas alguns casos, enquanto meios que ajudam a construir novas estratégias de ensino da Língua Portuguesa. 

O que a Bíblia agregaria como recurso de ensino?

  1. A insuficiência de meios de ensino constitui um dos elementos que coopera, pela negativa, para o fracasso do perfil pedagógico de determinados alunos. A dinâmica das sociedades, a evolução das TIC’s e a descoberta das novas tecnologias e a era da Inteligência Artificial, com a previsão iminente da era da computação quântica, exigem que os agentes educativos mergulhem cada vez mais na descoberta de novas formas de organização, novos métodos, princípios e recursos didáctico-pedagógicos que concorrem para o melhoramento do rendimento pedagógico. Além das componentes técnicas (cognitiva e psicomotora), apresentadas no impacto académico, a Bíblia apresenta conteúdos de domínio afectivo, responsável pelo saber ser e conviver, proposto por Jacque Dollors (1996), que promovem os valores morais e éticos universais, sem evangelizar nenhum aluno.

Ao sugerirmos a leitura da Bíblia Sagrada no programa de Língua Portuguesa, não anulamos a inserção de outros textos, muito menos defendemos a retirada de alguns. Simplesmente, entendemos que todos os recursos de ensino são poucos para serem explorados na aula de Língua Portuguesa, querendo tornar os nossos alunos pensadores autónomos e ajudá-los melhor para os vários desafios da vida.

Logo, a diversificação dos meios de ensino, através da Bíblia Sagrada, constituiria algum ganho no processo de ensino da Língua Portuguesa. 

Autor

Um Comentário

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  • Petit Douter Marcel

    Julho 4, 2026 / at 6:46 amResponder

    Mente brilhante, parabéns.

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