
Nas últimas décadas, a política tornou-se um dos principais eixos de interpretação da realidade social em numerosas sociedades. Em contextos marcados pela polarização, os indivíduos tendem a compreender acontecimentos, discursos e práticas sociais a partir de categorias políticas previamente estabelecidas. Em Angola, onde o debate público é frequentemente estruturado em torno das posições associadas ao MPLA e à UNITA, tal fenómeno parece manifestar-se de forma particularmente intensa.
Recentemente assisti a uma aula universitária sobre edição crítica. O professor analisava as diferenças entre duas edições de Nga Mutúri, de Alfredo Troni. Num determinado momento surgiu uma divergência textual: numa edição aparecia “Lunda” e noutra “Luanda”. O docente explicava as complexidades da transmissão textual, os erros de cópia, as distrações editoriais e os desafios inerentes à fixação de um texto. Antes, porém, que a discussão filológica pudesse avançar, um estudante apresentou uma explicação categórica: a alteração estaria ligada ao conflito político em torno das reivindicações autonomistas da Lunda-Tchokwe.
Não me interessa, aqui, discutir se a hipótese era verdadeira ou falsa. O que me chamou a atenção foi outra coisa: a velocidade com que um problema textual foi transformado num problema político. Não houve tempo para considerar a possibilidade de um lapso tipográfico, de uma falha de revisão ou de uma simples troca gráfica entre palavras semelhantes. A política chegou primeiro. Questionei-me: por que motivo um estudante universitário, perante uma pluralidade de hipóteses possíveis, escolhe imediatamente a hipótese política?
O episódio fez-me pensar num fenómeno cada vez mais presente na sociedade angolana. Vivemos uma época em que tudo parece ser interpretado politicamente. Um acontecimento deixa de ser apenas um acontecimento. Uma decisão administrativa deixa de ser apenas uma decisão administrativa. Uma palavra deixa de ser apenas uma palavra. Tudo passa a ser lido através da lente do conflito político.
É como se a realidade tivesse perdido as suas múltiplas cores para se reduzir a apenas duas: a cor do MPLA e a cor da UNITA. Sobre essa tendência, o filósofo espanhol Gustavo Bueno criticava aquilo a que chamava de “politicismo”, isto é, a inclinação para transformar a política na explicação universal de todos os fenómenos. Para o filósofo espanhol Gustavo Bueno, a política é uma dimensão importante da vida colectiva, mas não esgota a realidade. Existem factos científicos, culturais, linguísticos, económicos e psicológicos que possuem a sua própria lógica e que não podem ser compreendidos exclusivamente a partir da luta pelo poder.
Quando tudo se torna política, a política acaba por deixar de explicar e passa a deformar. Em vez de ampliar a compreensão do mundo, estreita-a. O problema torna-se ainda mais sério quando essa tendência entra na universidade. A universidade existe para cultivar a dúvida metódica, a análise crítica e a avaliação rigorosa das hipóteses. Um estudante universitário deve aprender a considerar diferentes explicações para o mesmo fenómeno antes de chegar a uma conclusão.
No caso em concreto, antes de qualquer interpretação política, um linguista colocaria várias hipóteses:
a) Erro tipográfico: a troca de “Lunda” por “Luanda” pode resultar de um simples erro de composição gráfica. Na crítica textual, os erros de cópia são frequentes e constituem um dos objectos centrais da edição crítica.
b) Fenómeno de semelhança gráfica: as palavras apresentam elevada proximidade gráfica:“Lunda” e “Luanda”.Existe apenas a inserção da vogal “a”.O revisor pode ter sido influenciado pela maior frequência de “Luanda” no contexto angolano.
d) Interferência lexical: na psicolinguística existe o fenómeno da frequência lexical. Uma palavra mais frequente tende a substituir inconscientemente outra menos frequente durante a leitura ou revisão. “Luanda” possui muito mais frequência de uso do que “Lunda”.
e) Fenómeno de paronímia: um linguista poderia argumentar que a troca entre “Lunda” e “Luanda” pode resultar precisamente da paronímia, isto é, da semelhança visual e sonora entre os dois topónimos.
O aspecto mais interessante deste episódio não reside, contudo, na possibilidade de uma ou outra hipótese estar correcta. O verdadeiro problema encontra-se no percurso intelectual seguido para chegar a uma conclusão. Numa investigação académica, as hipóteses devem competir entre si até que a evidência permita privilegiar uma delas. Neste caso, porém, as explicações linguísticas, filológicas e psicolinguísticas foram praticamente ignoradas em benefício de uma interpretação imediatamente política. O que se observa não é apenas uma escolha interpretativa, mas uma hierarquização das explicações, na qual a hipótese política adquire um estatuto privilegiado e quase automático. A questão deixa então de ser textual para se tornar epistemológica: por que razão, perante um conjunto de explicações plausíveis, a mente selecciona imediatamente aquela que remete para intenções ocultas, disputas de poder ou estratégias ideológicas? Talvez a resposta esteja menos no texto analisado do que no ambiente cultural em que vivemos. Numa sociedade fortemente polarizada, a política deixa de ser apenas um objecto de reflexão e transforma-se numa lente através da qual todos os fenómenos são observados. O risco dessa atitude é que a interpretação deixe de procurar a explicação mais provável para procurar apenas a confirmação das crenças previamente instaladas.
Quando a ideologia se instala como filtro dominante, a conclusão passa a anteceder a investigação. Não se procura compreender para depois concluir; conclui-se primeiro e procura-se depois argumentos que confirmem a conclusão. É aqui que o pensamento conspirativo encontra terreno fértil. A conspiração oferece uma satisfação intelectual imediata. Ela elimina a incerteza e fornece uma narrativa pronta. Tudo passa a ter uma explicação oculta. Tudo passa a ser resultado de um plano. Tudo passa a ser intencional.
Mas o pensamento crítico exige precisamente o contrário. Exige paciência perante a dúvida. Exige a coragem de admitir que nem sempre sabemos. Exige a disposição para aceitar que um erro pode ser apenas um erro.
Defender esta posição não significa expulsar a política da sala de aula. Pelo contrário. A política deve estar presente na universidade porque faz parte da realidade humana. A discussão em torno das Lundas é pública e se a narrativa literária levar para esse lugar, temos de lá chegar. Uma sociedade democrática necessita de cidadãos capazes de discutir política com inteligência, profundidade e sentido crítico, dimensões que se vão rareando entre nós.
A questão está em distinguir duas coisas que frequentemente são confundidas: falar de política e fazer política. Penso que falar de política é estudar os partidos, os governos, as eleições, as ideologias, os conflitos e as instituições. É analisar argumentos, comparar perspectivas e compreender processos históricos. Fazer política julgo ser outra coisa. É transformar a sala de aula num espaço de recrutamento ideológico, numa extensão dos comícios ou num campo de batalha partidário.
Uma universidade madura deve ser capaz de estudar o MPLA sem ser do MPLA. Deve ser capaz de estudar a UNITA sem ser da UNITA. Deve poder analisar o Governo sem ser governista e criticá-lo sem se tornar oposição. A sua lealdade fundamental não deve ser para com os partidos, mas para com a verdade, por mais provisória e imperfeita que ela seja.
Infelizmente, a polarização crescente da sociedade angolana parece caminhar noutra direcção. Muitos cidadãos sentem-se obrigados a escolher um lado antes mesmo de formular uma opinião. Como se não existisse espaço para a complexidade. Como se a neutralidade analítica fosse uma forma de traição.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja aprender a fazer política. Talvez seja aprender a pensar para além dela. Porque uma sociedade onde tudo se torna política corre o risco de esquecer que existem outras formas de compreender o mundo. E uma universidade onde tudo se torna política corre o risco ainda maior de esquecer a sua própria razão de existir.
Mediante os factos expostos, concluímos dizendo que se a universidade pretende permanecer fiel à sua missão histórica, deve preservar a sala de aula como um dos raros espaços de neutralidade crítica ainda existentes na sociedade. Neutralidade não significa ausência de convicções, nem proibição do debate político, filosófico ou religioso; significa, antes, a recusa de transformar qualquer convicção em verdade obrigatória. A sala de aula possui uma dimensão quase sacrossanta porque está consagrada à livre investigação do conhecimento. Nela, nenhuma ideologia, nenhum partido, nenhuma doutrina e nenhuma crença religiosa devem gozar de privilégios epistemológicos. Nem mesmo os dogmas religiosos, que para os fiéis podem constituir verdades absolutas, escapam ao exame crítico quando entram no domínio académico. A universidade existe precisamente para submeter todas as ideias ao crivo da razão, da argumentação e da evidência. Quando a sala de aula deixa de ser um lugar de perguntas para se tornar um lugar de certezas impostas, perde a sua natureza universitária. A sua grandeza reside justamente no facto de permitir que perspectivas distintas coexistam, confrontem-se e sejam avaliadas sem que nenhuma delas reclame para si o monopólio da verdade.







Mauro Costa
Que artigo desmistificador !