
As semanas do IBAN, desta vez, estão sendo preparadas pela semana das reprovações dos que não souberam nada. Curiosamente, ainda é possível encontrarmos realização na reprovação dos alunos, como se de alguma glória se tratasse.
Nossa inquietação nasce na categorização dos alunos em três grupos: “dos barras”, “dos mais ou menos” e “dos não sabem nada, ou nabos”, encontrada nas pautas finais afixadas nas vitrines das escolas, levando nossa memória à visitação da escola tradicional, onde o aluno supostamente barra se não respondesse a pergunta do professor, ora retida através de uma memorização mecânica, este não perdia o seu precioso tempo de visitar as respostas dos supostamente nabos (ou menos barras, ou dos não sabem nada) por entender que já não acertariam. Para piorar, se, por um acidente, a resposta do nabo chegasse à mesa de correcções do professor, ganhando alguma distinção, este nabo teria de justificar como encontrou a resposta e interrogado se não cabulou, o que, nos nossos dias, claramente colocaria em causa a actuação do professor como examinador e facilitador do processo de ensino-aprendizagem.
Próximo da atitude do professor tradicional é a atitude do professor da escola contemporânea, com manifestação na categorização de seus alunos com base nos três grupos citados. Se não quisermos assumir a postura do professor tradicional, talvez seja necessário visitarmos a escola esclavagista para com ela compactuarmos a ideia da tábua rasa, termo de pecado pedagógico, mas com mesmíssimo sentido do termo da santidade pedagógica “não sabe nada”.
São várias as questões que invadem a nossa mente, as quais talvez nos levem à busca de uma ressurreição de Paulo Freire para nos actualizar com uma pedagogia do oprimido focada num conteúdo de escrita criativa que transforme o aluno num escritor da liberdade capaz de construir uma narrativa que faz de sua habilidade como uma estrela no céu, antes que lhe sejam impostos textos indesejados com promessa de asas para voar que, na verdade, são simplesmente cortadas logo no começo do primeiro voo.
Já que na filosofia bantu se acredita que viver de expectativas é uma das principais formas de antecipar a morte, para suavização da morte do aluno que busca a melhor saúde possível do seu desenvolvimento pleno a fim de estar preparado para os desafios da vida, muitas vezes, aplica-se-lhe a eutanásia logo no contrato pedagógico com composições voltadas pelo despertar do medo, garantindo aos alunos que poucos seriam aprovados na disciplina (ou cadeira, se assim preferirmos), como forma de os menos resistentes morrerem aos poucos, já que a morte total só deve acontecer no final do ano lectivo, com a publicação das pautas. Alguns acreditam que as motivações da “eutanásia pedagógica” estão associadas à piedade face aos alunos que se encontram na “agonia pedagógica” e perfil de entrada intolerável, muitas vezes identificados num “preconceito pedagógico”.
Cumprida a profecia anunciada no contrato pedagógico, segundo a qual a maior parte da turma reprovaria, simplesmente por ser comum na disciplina do professor, e chegando ao fim o tempo da duração da eutanásia, mais uma vez se comprova o poder de a palavra do mestre não voltar vazia sem efectivação do designado. Porém, os “poréns” do cumprimento desta profecia deixam-nos com algumas pulgas nas orelhas e levantam sempre algumas questões como:
Quem foi reprovado? O aluno humano? O aluno técnico? Ou os dois alunos? Em que escala da avaliação foi reprovado?
Em quais domínios o aluno não sabe nada? Ainda temos aulas sem requisitos prévios? Como seriam tratados os perfis de entrada para alunos que não sabem nada? Quais das quinas visadas na política educativa obteve pouco rendimento pedagógico? O conhecimento? As habilidades? As atitudes? Os valores? Ou a Ética?
Em todas estas questões, talvez a mais importante fosse: será que a pessoa viva (o aluno) não sabe mesmo nada ou nós é que não potencializamos o que ela sabe, mediando e facilitando o processo do ensino e da aprendizagem como devíamos?
As perguntas parecem infinitas, porque depois segue outra: que impacto pedagógico a reprovação causaria na vida do aluno e na melhoria da qualidade de ensino-aprendizagem na instituição? Mas, mais do que esta pergunta, surge ainda outra: como o princípio às particularidades do aluno foi aplicado como evidência de que este não sabe, realmente, nada? Será verdade que a reprovação obedeceu a todos os critérios de avaliação e recorreu a todas as técnicas e reuniu todos os instrumentos possíveis da avaliação?
Considerando pedagogia do erro o pouco rendimento pedagógico (da parte do aluno) numas das quinas mencionadas, como a outra parte (a escola) pretende solucionar, no ano lectivo seguinte, as dificuldades do aluno como parte do processo do ensino e da aprendizagem?
As questões são meramente provocações pedagógicas levantas, sem desprimor ao acto de reprovação. Apenas entendemos que, se temos motivação para nos orgulharmos pelos nossos ex-alunos que hoje brilham nos mercados de trabalho e nas universidades ocidentais, principalmente (como forma de treino, nos dizer do professor Isaac Paxe, para exaltação subliminar de nossa actuação docente), também teríamos coragem para reconhecermos que aquele ex-aluno “fracassado” e talvez também “frustrado”, algum dia foi entregue nas nossas mãos para conduzirmo-lo às boas ferramentas que pudessem auxiliá-lo ao enfrentar os desafios da vida.
Fazendo assim, não estaríamos a dançar a música dos alunos que, quando classificados quantitativamente com 20 valores, dizem “Tive 20!” e, quando com 8 valores, ainda na classificação de “0” a 20, dizem “O professor deu-me 7 valores!”, isso também só se alguém próximo perguntar.
Portanto, não intentamos, com esta reflexão, a defesa da aprovação automática, muito menos atribuição ao professor de poder sobrenatural de transformar o aluno, até porque entendemos que as pessoas não são soluções dos nossos problemas, pelo que apenas nos ajudam resolvê-las. Se calhar, seja nesta perspectiva da responsabilidade de ajudarmos a resolver o problema do aluno que somos desafiados a intensificarmos nossas reflexões nas questões levantadas, no nosso procedimento didáctico-pedagógico.






