
As discussões em torno dos poemas netianos intensificam-se cada vez mais nas várias granjas sociais, com maior destaque nas academias, pelo que o seu esgotamento parece estar muito distante de se concretizar, tendo em conta a extracção de juízo de valor cada vez mais surpreendente.
Desta feita, verificámos haver pouca exploração do poema Confiança, enquanto recurso pedagógico destinado à elaboração de um discurso patriótico, numa altura em que o sentido patriótico parece estar a claudicar por parte de certos cidadãos.
No poema, as palavras comportam-se de modo variável, não apenas se adaptando às necessidades do ritmo, mas adquirindo significados diversos conforme o tratamento que lhes dá o poeta (Cândido 2006). Daí que trouxemos, neste artigo, a seguinte reflexão: Que significado patriótico o poema Confiança traduz para os dias actuais?
A opressão colonial deu origem, a partir dos anos 40, a um conjunto de manifestações que tomaram dimensões maiores e mais radicais com a formação de movimentos unitários que levariam ao desenvolvimento dos movimentos nacionalistas, visíveis, principalmente em discursos políticos e ensaísticos, bem claramente de temática anticolonialista (MATA, 2015). Junta-se nestes discursos, com maior destaque nos anos de 1949-1953, a poesia social, reivindicativa, feita por poetas de todas as raças que, corajosamente, com a força e a generosidade da juventude, apontavam o caminho justo (EVERDOSA, 2015).
É neste intervalo de tempo que surge o poema em análise, com uma linguagem metafórica pelo facto de o povo, sobretudo do campo, ter inclinação acentuada para a linguagem metafórica, principalmente sob a forma de comparação, como se tem constatado em provérbios e adivinhas de matrizes africanas.
Em Confiança observa-se, nas sentenças das três primeiras estrofes, deslocamentos que pressupõem a interpretação de essência retórica entre o sentido próprio e o figurado, como manifestação de dor psico-emocioal do sujeito poético, pela ausência de um ambiente capaz de proporcionar-lhe paz e sossego, denunciando e acusando o oceano ter separado seu “eu”: «O oceano separou-me de mim» e ser culpado de o impedir a sonhar, apesar de viver «enquanto me fui esquecendo nos séculos /e eis-me presente/ reunindo em mim /o espaço condensando o tempo».
A terceira estrofe «o sorriso brilhava no canto da dor» constrói-se por meio da alegoria affectatio ou inconsequentia ierum, segundo Hansen, por ser inépcia, retoricamente, pois o figurado passa com muita evidência para o primeiro plano, enquanto a ordem lógica das ideias fica obscurecida, contendo excesso de ilogicidade conceptual, cuja construção forma-se a partir de metáforas pertencentes a campos semânticos descabidos, havendo paradoxo na sua apresentação e dificultando a compreensão (HANSEN 2006).
A incoerência regista-se a partir do momento em que se constata a impossibilidade de o sorriso brilhar e de haver canto na dor.
Com esta combinação de palavras, e tendo em conta o contexto de produção, parece-nos que Neto cria um sujeito poético que não apenas faz denúncia pelos maus-tratos, pensando apenas em si, mas também pensando no seu próximo, seu irmão angolano, representado pela família de John, o que nos levaria a crermos na denúncia social não somente como marca do sentido de humanismo e sensibilidade em Neto, como também primeira manifestação patriótica deste poema.
«John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continuou» (NETO, 2015)
Esta quadra demonstra a forma como o regime colonial mantinha os filhos dos humildes camponeses distantes do sistema de ensino formal, maltratando aqueles que se encarregariam da educação de seus educandos, como estratégia de manutenção do sistema de colonização, adiando o sonho de muitos angolanos que já se encontravam cansados com o domínio que Portugal tinha sobre Angola.
Apesar de explorarmos este poema numa abordagem voltada à denúncia social e ao patriotismo, não nos escapou a voz da esperança que muito facilmente se encontra nos demais poemas de Neto.
«E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou certeza» (NETO, 2015)
Por se tratar também de um poeta negritudinista, Neto dá voz a um sujeito poético que, depois de denunciar os maltratos com certa subjectividade, aos poucos sai da subjectividade para a objectividade, através de uma comunicação estruturalmente mais clara e directa na exteriorização do seu pensamento, capaz de ser percebida plenamente (TENREIRO, apud MARGARIDO, 2015).
«As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de pão» (NETO, 2015)
A mensagem de esperança que o poema nos vai aprendendo aos poucos, na transição da linguagem figurada para a linguagem própria, não se torna uma simples falácia do sujeito poético. Pelo contrário, antes de expor a crença de merecimento, apresenta, em dois momentos do poema, duas acções: «As minhas mãos colocaram pedras/Nos alicerces do mundo […]» e «e as mais construíram mundos maravilhosos» que fazem dele um sujeito dinâmico, que vai à busca de suas realizações, também realizações do bem comum.
Em gesto de conclusão, percebe-se logo que o poema «Confiança» revela uma transição do estado de autocomiseração para o estado de merecimento. Nele, Neto ensina-nos a sairmos de algum conforto que nos coloca na posição de vítimas para uma atitude mais proactiva na construção de um mundo desejado, mas sempre sensível ao sofrimento do próximo, em vez de sermos simplesmente plateia.
Aprende-se com este poema que sensibilidade ao sofrimento do outro e acções que visam a contribuição para o progresso de uma nação é o que se impõe para os verdadeiros filhos de Angola.
CÂNDIDO, António (2006). Estudo analítico do poema. 4.a Edição. S. Paulo: Associação Editoras Humanitas.
ERVEDOSA, Carlos (2015). A Literatura Angolana. 2.a Edição: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).
HANSEN, João Adolfo. Alegoria. Construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Atual, 2006.
MARGARIDO, Alfredo (2015). Negritude e Humanismo. 2.a Edição: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).
MATA, Inocência (2015). A casa dos Estudantes do Império e o lugar da literatura na conscientização política. 1.a Edição: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).
NETO, Agostinho (2014). Poemas. 2.a Edição: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).






