Físicos da CPLP reunidos no Lubango para 6.ª Conferência da Especialidade

RecursoUniversidadeJunho 18, 2026

Angola acolhe pela primeira vez a Conferência de Física dos Países de Língua Portuguesa, que decorre no Lubango sob o lema “Física e Inovação Tecnológica para um Futuro Sustentável” com debate sobre a cooperação científica, fuga de talentos e reforma da formação em Física no espaço lusófono.

Setenta especialistas em Física pertencentes à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) estão desde quarta-feira, dia 17, reunidos no Lubango na 6.ª Conferência de Física dos Países de Língua Portuguesa. É a primeira vez que Angola acolhe o certame, que tem como objectivo fortalecer as redes de investigação e a formação de físicos nos Estados-membros.

O evento, com a duração de dois dias, decorre no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) da Huíla e é promovido pela União dos Físicos dos Países de Língua Portuguesa (UFPLP), com parceria organizacional da Associação Angolana de Físicos (AAF) e do próprio ISCED-Huíla.

Na sessão de abertura, a vice-governadora da Huíla para o Sector Político, Económico e Social, Maria João Chipalavela, destacou o fortalecimento da cooperação científica entre os países de língua portuguesa como instrumento fundamental para a inovação, a produção de conhecimento e o desenvolvimento sustentável, segundo noticia a Angop

Maria Chipalavela considerou ainda que a partilha de experiências constitui uma das principais valias do encontro, por permitir a criação de redes de investigação e o desenvolvimento de projectos conjuntos, numa altura em que, segundo a governante, os desafios globais exigem respostas cada vez mais coordenadas entre instituições académicas e científicas, sobretudo nas áreas da energia, ambiente, saúde pública e transformação digital.

A vice-governadora sublinhou também o papel determinante da Física na compreensão dos fenómenos naturais e no desenvolvimento de tecnologias com impacto na qualidade de vida das populações, citando avanços em sectores como Telecomunicações, saúde, inteligência artificial e energias renováveis. Para a responsável, a inovação tecnológica é hoje um factor estratégico de crescimento económico e competitividade, o que exige investimento contínuo na formação de investigadores e na modernização das instituições de ensino superior, alinhando esta posição com o Plano Nacional de Desenvolvimento.

UFPLP defende aposta estratégica na ciência

A Presidente da União dos Físicos dos Países de Língua Portuguesa, Sónia Semedo, de nacionalidade cabo-verdiana, defendeu uma aposta estratégica e continuada na ciência, com destaque para o reforço da formação científica e da cooperação entre os países lusófonos.

Segundo Semedo, o investimento na ciência deve ser encarado como prioridade estratégica para o desenvolvimento sustentável das nações, sobretudo em contextos de grandes desafios sociais e económicos. A dirigente sublinhou a importância de fortalecer o ensino da Física desde os níveis iniciais até ao Ensino Superior, de forma a estimular o interesse dos jovens pela investigação científica.

Presidente da União dos Físicos dos Países de Língua Portuguesa, Sónia Semedo | Foto: Angop

Para a Presidente da UFPLP, o reforço de políticas de incentivo à formação avançada e a criação de programas de mobilidade académica entre universidades dos países da CPLP são essenciais para consolidar comunidades científicas mais robustas. Sónia Semedo defendeu ainda que a cooperação científica deve envolver não apenas universidades, mas também governos, centros de investigação e o sector privado, apontando a necessidade de reduzir assimetrias entre os sistemas de ensino superior dos diferentes países da comunidade lusófona.

A dirigente concluiu que a conferência representa uma oportunidade para reforçar redes de colaboração e projectar o futuro da ciência no espaço lusófono.

ISCED-Huíla propõe reorientação da formação em Física

O presidente do ISCED-Huíla, Helder Bahu, propôs a reorganização da formação em Física através de uma abordagem mais aplicada e orientada para a resolução dos desafios do desenvolvimento nacional. Segundo o académico, a evolução das exigências científicas e tecnológicas impõe uma reflexão sobre os modelos actuais de formação, de modo a aproximá-los das necessidades concretas da sociedade.

Presidente do ISCED-Huíla, Helder Bahu | Foto: ISCED

Helder Bahu defendeu uma transição de uma formação predominantemente voltada para a docência para uma perspectiva mais abrangente de Física Aplicada. No domínio da sismografia, apontou a necessidade de aprofundar a investigação relacionada com as réplicas sísmicas registadas em municípios da Huíla, como Caluquembe e Gambos.

O responsável recordou que o ISCED-Huíla possui uma longa tradição na formação de quadros, tendo diplomado, ao longo da sua história, 492 licenciados em Ensino da Física e 43 mestres em Ensino das Ciências, na opção Física.

Alerta para a fuga de talentos na Física

O membro fundador da UFPLP, Horácio Fernandes, alertou para a elevada perda de talentos na área da Física na comunidade lusófona, situação que, segundo o especialista, está a comprometer a continuidade da formação de quadros nesta ciência.

Fernandes destacou que a fuga e o abandono de jovens talentos representam um dos principais desafios actuais, explicando que muitos estudantes com vocação para a Física acabam por não prosseguir a carreira científica devido à falta de condições adequadas de ensino e investigação, nomeadamente a indisponibilidade de laboratórios modernos e o acesso limitado a experiências práticas.

Membro fundador da UFPLP, Horácio Fernandes | Foto: Angop

Segundo o académico, a Física exige rigor, continuidade e forte componente experimental, condições ainda limitadas em vários sistemas de ensino da CPLP, o que resulta numa perda significativa de capital humano qualificado. Fernandes apontou ainda a intensificação da competição internacional por talentos científicos, com instituições estrangeiras a recrutar jovens formados nos países da CPLP, que acabam por emigrar em busca de melhores oportunidades, uma dinâmica que, na sua avaliação, fragiliza a capacidade de inovação interna dos países e aumenta a dependência tecnológica externa.

Por considerar que a Física desempenha um papel central no desenvolvimento de áreas como engenharia, energia e inteligência artificial, Horácio Fernandes apelou a uma acção coordenada entre os países da CPLP para travar a perda de talentos e reforçar a capacidade científica e tecnológica da comunidade. 

Para além do debate científico, a 6.ª Conferência tem como objectivos reforçar a cooperação científica entre os países da CPLP, promover a investigação e o ensino da Física, incentivar jovens investigadores e contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico sustentável no espaço lusófono.

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