
A primeira missão do subsistema de ensino superior angolano, de acordo com o Decreto Presidencial n.º 310/20, de 07 de Dezembro, é “formar quadros com alto nível de educação, expresso numa adequada preparação técnica, científica, cultural e humana, em diversas especialidades correspondentes a todas as áreas do conhecimento, com capacidade de desenvolver a aprendizagem ao longo da vida e contribuir para o desenvolvimento socioeconómico do País.”
Esta deveria ser, sem surpresa, a bússola da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto (FHUAN), especialmente nos seus cursos de línguas e literaturas. Mas a realidade é um balde de água fria. Longe de cumprirem este desígnio, as salas de aula têm lançado para o mercado indivíduos que, por força da exclusão laboral, pouco ou nada conseguem contribuir para a economia nacional. O diagnóstico é conhecido: após anos de dedicação, os licenciados — com particular realce para os de Língua e Literaturas em Língua Francesa e de Línguas Africanas — enfrentam uma travessia no deserto que dura anos até conseguirem um emprego estável.
É um cenário tão preocupante quanto desolador. Quem acompanha a trajectória dos egressos daquela que é a primeira e maior universidade do país conhece bem o contraste. No início da caminhada, o sentimento é de orgulho e as expectativas são imensas, afinal, superou-se o funil altamente competitivo do ingresso numa universidade pública. O problema é que o sonho do diploma na maior instituição do país se tem transformado, com demasiada frequência, numa estrada sem saída.
A partir daí, o percurso transforma-se numa sucessão de incertezas. Entre o custo diário do candongueiro ou do autocarro, a compra de materiais didácticos e a escassez de livros, as barreiras financeiras tornam a jornada académica um verdadeiro teste de sobrevivência. A fau passa a ser um calvário. Quem consegue chegar ao fim é visto quase como um mártir por familiares que ‘deram o litro’ e abdicaram de muito durante anos.
Não é, portanto, por mera vaidade que tantos graduados celebram o feito com grandes banquetes. Para o estudante, representa o fim de uma longa batalha e o início de um ciclo promissor; para a família, o tão esperado alívio financeiro e a hora de colher os frutos do sacrifício. Ledo engano!
A vida após o diploma revela-se, na verdade, mais difícil do que os anos de estudante. Na universidade, ao menos, a esperança alimentava os dias; cá fora, o destino profissional da maioria dos egressos em Línguas e Literaturas da Faculdade de Humanidades da UAN transforma-se numa dolorosa incógnita. Poucos são os que se safam e, destes poucos, muitos são os que acabam empurrados para funções totalmente desalinhadas com a sua formação. Sobrevivem como podem: no sector público ou no privado, nas margens do mercado formal ou na dureza do informal, ou ainda no ‘desenrasque’ do negócio próprio, para os que reúnem forças e capital para empreender.
Toda esta propaganda em torno do perfil de saída dos cursos de línguas da Faculdade de Humanidades, num país sério, seria rotulada como crime de publicidade enganosa
Tudo isto diz muito sobre o plano curricular que vigora na FHUAN há vários anos. Com uma carga horária de 3090 e 206 unidades de crédito, o curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa, por exemplo, tem no seu currículo como perfil de saídas profissionais o seguinte: “assessor em serviços culturais e de comunicação, de administração pública, de empresas e de centros de documentação”, “docência (após a conclusão da Agregação Pedagógica)”, “guia turístico”, “investigador na área da Língua Portuguesa, Linguística e Literatura”, “jornalista” e “revisor”.
Promete tudo, mas entrega desilusão. Na prática, para sobreviver ao mercado, o estudante é obrigado a ‘se virar nos 30’ e correr atrás de cursos paralelos de capacitação, se quiser estar preparado para o futuro. O drama agrava-se para quem já passou, de facto, da barreira dos 30, altura em que as exigências da vida e o próprio mercado se tornam ainda mais implacáveis. Isto porque a faculdade demite-se da sua responsabilidade, que seria a de dotar o indivíduo de aptidões profissionais para a sua inserção no mercado de trabalho.
Ora, sem aulas práticas, como pode um estudante aprender a assessorar serviços culturais, empresas ou a administração pública? Como se forma um jornalista ou um revisor de texto que nunca pisou uma redacção de jornal, rádio ou televisão? Como se prepara um docente que jamais liderou uma sala de aula? Como se molda um guia turístico sem nunca sair à rua, ou um investigador científico sem qualquer financiamento?
Toda esta propaganda em torno do perfil de saída dos cursos de línguas da Faculdade de Humanidades, num país sério, seria rotulada como crime de publicidade enganosa. A razão é simples e dolorosa: defrauda as legítimas expectativas dos estudantes.
O compromisso legal de preparar quadros com elevado nível científico, técnico e humano não pode ser apenas tinta no papel, tem de se traduzir na prática. A FHUAN não pode continuar a ser uma instituição inerte, alheia à realidade laboral. Não pode ser uma instituição cuja única valência seja dar uma mera ‘bagagem cultural’ a quem lá estuda. A faculdade tem de ser muito mais do que isso. A juventude precisa de sustentabilidade, de competências técnicas reais e de emprego, e isto só se consegue com um ensino efectivamente prático.
um egresso sem emprego representa um contribuinte a menos
Deixemos de lado o mito de que o objectivo central da Faculdade de Humanidades da UAN é formar puros linguistas ou investigadores, até porque a realidade desmente essa premissa. E, mesmo que assim fosse, esse cientista da linguagem teria de ser, antes de tudo, um profissional apto a exercer funções reais no mercado de trabalho.
É urgente assumir que esta instituição precisa de mudar de rumo, inclusive para salvaguardar a própria saúde financeira do Estado, que investe fundos públicos na formação de milhares de cidadãos sem qualquer garantia de retorno. Afinal, a lógica económica é elementar: um egresso sem emprego representa um contribuinte a menos. É menos consumo, menos arrecadação fiscal e, portanto, mais dinheiro desperdiçado pelo próprio Estado.
Poderia elencar aqui várias outras vias para a empregabilidade dos estudantes da FHUAN, mas sejamos pragmáticos: a formação pedagógica continua a ser o caminho mais rápido e de maior garantia. Basta olhar para o mercado para ver que a esmagadora maioria dos licenciados em ciências da educação é absorvida com relativa facilidade. Se mapearmos a inserção profissional dos diplomados em línguas e literaturas por todo o país, confirmamos que o sector do ensino, público ou privado, é o seu principal porto de abrigo.
Portanto, não adianta continuarmos a remar contra a maré. É tempo de alinhar a academia à realidade. Neste sentido, apresento a seguir alguns subsídios para uma restruturação curricular urgente dos cursos de línguas da referida faculdade, com vista a torná-los mais atractivos e, acima de tudo, a devolver opções de futuro aos estudantes.
Na Faculdade de Humanidades, seria perfeitamente possível reorganizar e aglutinar os actuais cursos de línguas em quatro grandes vertentes: Letras – Português e Inglês; Letras – Português e Línguas Africanas; Letras – Português e Francês; Letras – Português e Literaturas. Por escassez de espaço, limito-me aqui a propor o desenho de um currículo do curso de Letras – Português e Inglês. O objectivo seria formar um professor polivalente, apto para a investigação linguística e, acima de tudo, preparado para leccionar ambas as línguas e as suas respectivas literaturas no primeiro e segundo ciclos do ensino secundário. Teríamos, assim, um profissional versátil, com o leque de empregabilidade substancialmente alargado.
Com uma carga horária devidamente ajustada, a arquitectura deste novo curso estaria dividida em três eixos fundamentais. O primeiro, dedicado à formação pedagógica, abraçaria os conhecimentos científicos e educacionais que fundamentam o ensino e a sua articulação directa com a realidade das escolas. O segundo eixo, focado nos conteúdos específicos, abrigaria o estudo aprofundado que alicerça a grande área de Letras: a Linguística, a Literatura e o domínio técnico das Línguas Portuguesa e Inglesa. Por fim, o terceiro eixo, de dimensão estritamente prática, compreenderia disciplinas de prática pedagógica, como estágios e disciplinas de prática dos componentes curriculares dos eixos anteriores.
No primeiro eixo, a grande novidade seria a introdução de cadeiras que respondem às exigências do século XXI. Falo de disciplinas inovadoras como Introdução aos Estudos da Língua Gestual Angolana, Educação Especial, Língua Portuguesa como Língua Não-Materna e Tecnologias Digitais e Ensino de Língua Estrangeira. A estas juntar-se-iam a disciplina de Filosofia, Psicologia e Educação, além das metodologias específicas de ensino e da formação de professores, numa lista que, obviamente, não esgota as competências pedagógicas necessárias, mas lança as suas bases.
No segundo eixo, focado nos conteúdos específicos, o plano curricular aproveitaria a base científica que já consta dos actuais cursos de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa e de Língua Inglesa, aplicando-se apenas os reajustes necessários para a fusão das duas áreas.
É imperativo mudar a percepção pública de que estes cursos, no final de contas, “não servem para nada”. Urge reestruturar estes currículos
Já o terceiro eixo materializaria o coração prático da reforma. Destacam-se aqui: Estágio Obrigatório de Língua Inglesa; Estágio Obrigatório de Língua Portuguesa e Literatura; Prática de Crítica Literária; Prática de Leitura e de Formação do Leitor Literário; Prática de Leitura e de Produção de Textos Académicos; Prática de Leitura e de Produção de Textos; Prática de Normas Gramaticais da Língua Portuguesa; Prática e Metodologias do Ensino de Língua Portuguesa; Prática e Metodologias do Ensino de Língua Inglesa.
O meu objectivo neste artigo foi apontar caminhos para curar o que já considero uma ferida aberta. As consequências da falta de reestruturação curricular dos cursos de línguas e literaturas da Faculdade de Humanidades da UAN têm infligido duras dificuldades socioeconómicas a milhares de famílias angolanas. Famílias que vêem na formação superior a única saída para a vulnerabilidade financeira, mas que assistem, impotentes, à frustração desse sonho logo após a outorga de diplomas.
É imperativo mudar a percepção pública de que estes cursos, no final de contas, “não servem para nada”. Urge reestruturar estes currículos. É tempo de superar uma visão estritamente académica e estéril, abraçando uma perspectiva empreendedora, inovadora e genuinamente alinhada com as reais exigências do mercado actual.
BRAGA, Daniel Santos et al. Empregabilidade e destino ocupacional de egressos da educação superior: uma revisão da literatura. São Paulo: Revista de Educação PUC-Campinas, 2022, p. 1-15
Brasil. Resolução n.º 1.095-Cograd/UFMS, de 3 de outubro de 2024







Edna Vunge Pedro
Ninguém melhor que um estudante da referida faculdade para tal análise. Acredito que estejas sendo a voz de milhares de “estudantes perdidos “ mesmo tendo percorrido um caminho certo.👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾
Espero que tal Artigo venha a chegar em mãos certas e que um dia possamos ver mudanças .