
A trajectória de Narciso Samba reforça o papel transformador da educação em Angola. Com um início escolar tardio e uma rotina de trabalho informal na Tourada, o jovem superou as barreiras financeiras e concluiu a sua licenciatura na Universidade Agostinho Neto.
A história da educação em Angola ganha um novo capítulo de superação com o percurso de Narciso Pedro Samba. Nascido e crescido na rua n.º 43 do bairro Cassequel do Lourenço, em Luanda, o jovem enfrentou desde cedo as barreiras da exclusão social. Por falta de recursos económicos e de abertura por parte dos pais, ele registou um início escolar tardio, ingressando na 1.ª classe apenas aos 10 anos de idade, na Escola Primária n.º 1074, ex-Escola n.º 224.
O atraso estrutural na infância, contudo, não diminuiu a sua vontade de vencer. Anos mais tarde, aos 16 anos, a necessidade de garantir a sua subsistência e o lanche para a escola, evitando ser um dependente dos colegas, levou-o a procurar o mercado informal. Com o apoio de um amigo de infância, Narciso foi aceite pelo grupo que geria a lavagem de viaturas na zona da Tourada, no bairro da Calemba, em Luanda.

“A vergonha já cobriu o meu rosto”, relata Narciso ao RECURSO, ao recordar o início da sua jornada. “Lembro que, por conta da juventude, eu cobria a cara com um chapéu para lavar os carros. Mas depois de um tempo achei melhor descobrir o rosto para mostrar o verdadeiro eu. Tudo começou na lavagem de carros, antes de qualquer conquista na minha vida”.
Trabalhar nas ruas de Luanda colocou Narciso diante do preconceito. Para a maioria das pessoas, a actividade de lavador de carros está associada à marginalidade ou ao desperdício de recursos em vícios. “Era quase impossível falar às pessoas que eu tinha o sonho de entrar para a faculdade e sustentar os meus estudos com aquele trabalho. Alguns clientes até me ouviam, mas não acreditavam no meu sonho”, revela.
Porém, foi na própria lavagem que Narciso encontrou o combustível para avançar. Incentivado pelos clientes com quem interagia diariamente, que viam nele um potencial diferenciado, decidiu inscrever-se, em 2014, no curso de Comunicação Social do Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL).
Em 2017, Narciso alcançou o objectivo de ingressar na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto (UAN), no período pós-laboral. A rotina tornou-se esmagadora: dividia as tarefas físicas da lavagem com os colegas para conseguir facturar cerca de 4 mil kwanzas diários, valor que usava para pagar fascículos, alimentação e parte da propina.
No segundo ano da faculdade, o cansaço acumulado e a exigência de tempo para os estudos académicos fizeram os seus rendimentos cair. Diante da iminência de ter de abandonar a universidade por falta de dinheiro, Narciso procurou o seu antigo professor do IMEL, Júlio Manuel, a quem pediu socorro. Sem meios para financiá-lo directamente, o docente conseguiu inseri-lo no programa “A Sua Manhã”, da Televisão Pública de Angola (TPA), no dia 24 de Janeiro de 2018.

“Foi a partir desse programa onde contei a minha história de superação. A TPA fez uma reportagem e eu chorei amargamente para poder merecer um apoio, porque o que eu mais queria na minha vida era só me formar”, relembra Narciso.
O apelo emocional surtiu efeito e, para o pagamento de propinas no valor de 15 mil kwanzas mensais, o jovem foi contemplado com uma bolsa de estudo do Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MINTTICS), aliviando o fardo financeiro da formação.
“Para além de custear a formação, possibilitava também o pagamento dos emolumentos, de livros e fascículos. Inclusive, havia recebido também materiais de apoio, como computador e máquina fotográfica”, acrescenta.
Mesmo com o suporte da bolsa do MINTTICS, as exigências da UAN mantiveram o ritmo de vida de Narciso no limite. Ele precisava de conciliar a leitura e o resumo de mais de 30 páginas diárias com as idas à lavagem de carros para garantir a alimentação.
A consagração final ocorreu no passado dia 23 de Junho de 2026. Narciso Samba submeteu-se ao júri da UAN para a defesa da sua monografia de licenciatura em Comunicação Social. O tema escolhido foi uma extensão da sua própria vivência: O dia-a-dia dos lavadores de carro do bairro da Calemba, travessa da Tourada.
“O que influenciou a escolha desse tema era motivar as pessoas com a minha história. Eu queria mostrar as dificuldades sociais, um outro lado dos lavadores de carro, contrariando a ideia de que lavadores de carros só lavam para beber”, esclarece. Pelo rigor e relevância social da abordagem, o júri atribuiu-lhe a nota de 18 valores.
Actualmente, a vida de Narciso Samba tem tomado um rumo diferente. Aconselhado e orientado por um cidadão que conheceu nos tempos em que trabalhava na rua, o jovem submeteu no ano passado a sua documentação a um concurso público do Ministério do Interior e hoje integra o quadro dos agentes do Serviço Nacional de Migração e Estrangeiros (SME).

Para os jovens angolanos que lutam por objectivos semelhantes, Narciso deixa um conselho prático: “Se querem alcançar as vossas metas, aconselho a não se focarem muito no sistema angolano, porque quando você faz isso a tendência de se decepcionar é maior. Foquem-se naquilo que querem, aceitem as dificuldades e superem. É preciso resiliência”.
Com o diploma assegurado, os planos de Narciso passam agora por usar a sua vivência para impactar outras realidades através de palestras e consultorias. Neste sentido, escreveu o livro Passos triunfais de um lavador de carro, para inspirar outros jovens com a sua história de vida.
“Acredito que a minha história de superação não é para ficar comigo mesmo. Pretendo com a minha área de formação ajudar as pessoas”, finaliza.






