
Nasceu no Dundo, província da Lunda-Norte. Em 1995, aterrou no Brasil, onde viveu nas ruas de São Paulo durante sete meses, fase que “foi a pior experiência” da sua vida. Sempre acreditou que ultrapassaria aquelas dificuldades, e assim aconteceu. Formou-se em Letras pela célebre Universidade de São Paulo (USP). Actualmente, é empresário na área do ensino de línguas e tem clientes como a Google, Facebook e o Banco Itaú.
A saída de Crispim Clemente Mateus Calonge de Angola tem contornos cinematográficos. Com apenas 16 anos de idade, infiltrou-se num voo exclusivo para transporte de estrangeiros. Estava decidido a fugir à guerra fratricida que assolava o País e nada podia impedir a sua busca por segurança e formação. Tinha um “trunfo na manga”, o domínio da língua inglesa, “arma secreta” que usou para embarcar no avião, fazendo-se passar por estrangeiro. Mas Crispim não fala apenas inglês. Poliglota, é fluente em tchokwe, tchiluba, francês, ucraniano e muitas outras línguas.
“Desde muito cedo tive contacto com línguas diferentes do Português e, nesse sentido, era natural compreender que falar diferentes idiomas seria necessário”, conta ao RECURSO.

Aprender línguas foi uma necessidade devido ao meio que frequentava. O Dundo era um ponto de confluência de pessoas de diversas origens e línguas, dentre as quais familiares e amigos que não falavam português.
“Na época, eu só queria poder conversar com os meus primos e amigos, que nem sempre falavam português”, recorda.
Antes de chegar ao Brasil, aos 20 anos de idade, passou por Malta, onde não teve tempo para integrar-se, e pela Rússia. O inverno “severo” fê-lo abandonar o país, mas ainda conserva as memórias do que diz terem sido “das melhores experiências” que teve em Moscovo.
“Eu dependia apenas de mim mesmo e precisava prestar atenção a absolutamente tudo. Namorei uma ucraniana, o que me ajudou a aprender a língua mais rapidamente. Fui eleito presidente dos estudantes da província da Lunda-Norte, o que me trouxe responsabilidade, disciplina e senso de organização”, recorda.
Enquanto esteve a dormir nas ruas paulistas, pensou em voltar para Angola, até porque ainda tinha o bilhete de voo válido. Desistiu desse pensamento: “sabia que não era a melhor opção. Não achava que tinha tentado o suficiente”.
Quando ingressou na USP, pouco depois foi a entrevistas de emprego para professor. Foi contratado e, três meses passados, já estava a viver num apartamento arrendado. “Nem acreditei que isso estava a acontecer. Tinha um lugar para morar e que podia chamar de meu”, lembra.
Mas não era a primeira vez que exercia a docência. Em Luanda, onde vivia desde os nove anos de idade, foi convidado pela sua professora de Didáctica do Ensino da Língua Inglesa a leccionar no colégio Elizângela Filomena, e recebeu outro convite para ser coordenador na Agência de Tradução de Angola. Ainda foi professor de Inglês na escola Nzinga Mbandi.
No Brasil, onde começava a reconstruir a vida, Crispim destacava-se no ensino de Inglês porque, à data, “eu era considerado um professor diferenciado, já que a maioria dos professores de inglês eram apenas falantes, sem formação específica”. Tinha estudado metodologia de ensino e pedagogia no IMNE Garcia Neto, e muito do que aplica hoje nas aulas que ministra aprendeu naquela escola de Luanda.

Entretanto, não tem dúvidas de que a oportunidade para criar a própria escola de línguas surgiu na sequência da licenciatura na maior universidade da América Latina, período que recorda como “desafiador e proveitoso”. Fundou, então, a Boutique of Languages by Calonge, que surge com o conceito de ensino ao domicílio.
“Na época, os alunos iam às escolas para fazer cursos. Eu criei a ideia de ir ao encontro dos alunos nas suas empresas, casas, shoppings, academias, parques, etc.”, detalha.
Para além de inglês, francês, russo e português para estrangeiros, a escola de Calonge distingue-se das demais por oferecer lições sobre resiliência, disciplina e liderança.
Dentre os clientes, destacam-se executivos de empresas bastante conhecidas mundialmente, como a Google, a Meta, dona do Facebook, o Banco Itaú, Casa dos Ventos, Smarters, Instituto Ayrton Senna, Ambev, Deloitte e General Motors Bank.
“Os executivos achavam diferente e gostavam muito. Por isso, comecei a ser convidado para dar palestras sobre resiliência e liderança. Um homem que fugiu da guerra, morou nas ruas e hoje ensina executivos e personalidades do Brasil, isso oferecia conforto e inspiração”, conta.
Cita alguns nomes conhecidos no seu portefólio, personalidades de sucesso no Brasil, como o CEO da Fast Company, Marcelo Lobianco, os cantores Mumuzinho e Duda Beat, os actores Allan Lima e Bukassa Kabengele, o radialista e produtor musical Celso Giunti, e também o jornalista Rodrigo Bocardi.
Como parte da sua estratégia de responsabilidade social, a Boutique of Languages by Calonge apoia, filantropicamente, refugiados na terra do samba. Foi convidada pelo Estado de São Paulo, através da Secretaria de Assistência Social, para dar aulas de português no projecto-piloto “Terra Nova”.

“Ao chegar lá, percebi que apenas ensinar a língua não seria suficiente. Então, introduzi hábitos e costumes do Brasil, cultura, direitos e deveres, a partir do artigo 5.º da Constituição. Foi um grande sucesso, que levou jornais como Folha de S. Paulo, TV Record, TV Cultura, TV Gazeta e outros veículos a escreverem sobre mim e o meu trabalho. Recebi prémios e reconhecimento por esse projecto”, revela.
Prestes a completar 52 anos de idade, Crispim mantém-se activo no desenvolvimento e implementação de projectos com impacto social. Em 2016, criou o “Kwetu – Projecto Inglês Sem Custo”, iniciativa “que oferece aulas gratuitas de inglês para 450 crianças em Angola (Luanda e Gabela), Portugal, Moçambique, Brasil e Argentina”. Tanto a Kwetu como a Boutique of Languages funcionam integralmente online.
Publicou, em 2023, o livro de género infantil intitulado “Mukunza”, com ilustração do artista angolano Paulo Chavonga, que rapidamente se tornou uma referência em escolas públicas e privadas, sendo utilizado para discutir questões sobre diversidade, inclusão e respeito pelo outro na sua própria condição.
“Escrevi Mukunza a partir de um evento discriminatório que o meu filho viveu quando tinha cerca de 6 anos de idade. Mukunza veio para ensinar, despertar e, sobretudo, provocar uma outra narrativa, com amor e didáctica, mostrando uma outra possibilidade, que, para mim, é a única possível na convivência com o outro: o respeito”, explica.
Crispim Calonge continua a estudar, encontrando-se actualmente a frequentar o curso de Psicologia na USP: “nunca deixei de estudar”. Esteve a viver em Buenos Aires, Argentina, nos últimos dois anos. Orgulha-se do percurso académico que trilhou e continua a trilhar, das vicissitudes que enfrentou para se tornar a pessoa que é, cheio de memórias de vitória.

Crispim Clemente Mateus Calonge (tcp. Uakussema) nasceu no dia 7 de Maio de 1974, na cidade do Dundo, província da Lunda-Norte, Angola. É casado com Camilla Calonge. Pai de dois filhos, Oluwasheun Calonge, de 28 anos de idade, e Ayodela Marie Calonge, de 10 anos de idade.






