
Há estudantes angolanos na África do Sul que já se viram obrigados a faltar às aulas para não serem alvo de violentos ataques de xenofobia. O RECURSO falou com duas associações de angolanos nas ‘terras de Mandela’, e ambas convergem na necessidade de manter vigilância. Emitido há quase duas semanas, o último comunicado das autoridades nacionais pede “calma”, visto que não há registo de angolanos “afectados directamente”.
“Fiquem em casa durante estes três dias.” O apelo é de Vaiquen António, agente de eventos da Organização dos Estudantes Angolanos (ASO, na sigla em inglês), em Pretória, que falava para os companheiros em finais de Abril. Contudo, em declarações ao RECURSO, não descarta esta necessidade e ressalta que os estudantes angolanos em Pretória, na África do Sul, vivem “sob um clima de medo e incerteza face à ameaça de novos episódios de xenofobia”. Apesar de não haver registo de ataques directos no meio académico, a recomendação da ASO para os seus membros é clara: evitar deslocações, permanecer em casa e acompanhar atentamente os alertas das autoridades diante das manifestações violentas.
“Sempre que há indicação de manifestações, evitamos deslocar-nos à universidade. Essas acções são frequentes e, na maioria das vezes, acabam em confusão, afectando sobretudo estrangeiros”, explica Vaiquen António.
A residir na África do Sul há quatro anos e a frequentar o curso de Gestão Empresarial na Tshwane University of Technology, a estudante assegura que, até ao momento, segundo dados da ASO, que acompanha cerca de 200 estudantes, não há registo de estudantes angolanos directamente atingidos por ataques xenófobos no meio universitário. Ainda assim, sublinha que a comunidade vive sob uma lógica de prevenção constante, baseada em informação partilhada por universidades, embaixada e associações estudantis.
Segundo Vaiquen António, os episódios mais violentos ocorrem em zonas comerciais, onde muitos imigrantes desenvolvem actividades económicas. Por essa razão, os estudantes têm-se mantido relativamente afastados do epicentro dos confrontos. Ainda assim, “o ambiente geral é de instabilidade e vigilância permanente”, avisa, ressalvando que, apesar da relativa segurança no espaço académico, há “uma discriminação estrutural no quotidiano”, sobretudo nos serviços públicos. “Há maus-tratos nos hospitais e em locais de tratamento de documentos. O simples facto de sermos estrangeiros condiciona a forma como somos atendidos.”

Sabelas Muambongue é o secretário executivo da UNASA (União dos Angolanos Residentes na África do Sul), organismo que existe desde 2002 e foi oficialmente registado em 2005, estando reconhecido pela Embaixada de Angola na África do Sul e pelo Consulado em Joanesburgo. A UNASA congrega mais de 150 estudantes.
Socorrendo-se de todo este historial, Sabelas Muambongue reforça não haver, até ao momento, registos de angolanos atingidos por eventos relacionados com a xenofobia. “Felizmente, a UNASA não tem nenhum registo do género”, refere, lamentando, entretanto, que consulados como o do Zimbabwe se tenham visto obrigados a fechar por falta de segurança na cidade em que se encontram.
“Os estrangeiros passam, sim, por discriminação nas instituições públicas, como nos hospitais públicos, sendo obrigados a optar por instituições e médicos privados. Portanto, o nosso apelo à vigilância não é só para os estudantes angolanos, mas também para outros estrangeiros residentes aqui na África do Sul”, conclui.
Estando sob alguma crítica nas redes sociais por alegada falta de acção, a última comunicação oficial das autoridades angolanas sobre os actos de xenofobia na África do Sul data de 24 de Abril e foi assinada pelo Consulado-Geral de Angola em Joanesburgo. Dirigindo-se especialmente aos angolanos residentes nas províncias de KwaZulu-Natal (Durban) e Gauteng (Joanesburgo), o comunicado referia que, apesar das ocorrências de “situações de tensão social”, não havia “qualquer registo oficial de cidadãos angolanos directamente afectados por actos de violência ou agressão”.
Sublinhando que as autoridades diplomáticas e consulares do País estavam em “contacto permanente com a comunidade local”, o referido documento apelava à “calma” e à actuação com “prudência”. Segundo a nota, é preciso “evitar deslocações desnecessárias”, sobretudo em áreas onde se registam concentrações ou manifestações.
“Recomenda-se igualmente o cumprimento rigoroso das orientações das autoridades locais”, lê-se no comunicado, no qual o Consulado-Geral de Angola em Joanesburgo reitera “o compromisso de proteger e prestar assistência aos cidadãos angolanos” e afirma manter-se “disponível para qualquer esclarecimento ou apoio necessário, através dos canais de comunicação conhecidos”.
Problema recorrente, que resulta em ondas de protestos violentos e distúrbios por parte de grupos anti-imigração, as actuais tensões xenófobas na África do Sul já levaram algumas embaixadas a proceder ao repatriamento dos seus cidadãos. Os dados actuais não são precisos quanto ao número de mortos, mas, em 2019, por exemplo, morreram 18 estrangeiros, segundo dados da organização Human Rights Watch. No essencial, os manifestantes acusam os estrangeiros de lhes roubarem os empregos e de encarecerem o custo de vida.






