
Estudantes do Magistério Kimamuenho com necessidades especiais denunciam limitações na comunicação e escassez de materiais adaptados. Na vasta lista de queixas, consta também a “insuficiente formação” dos professores em língua gestual e braille. O director da escola faz mea culpa ao assumir “inexperiência” por parte dos docentes.
Vários estudantes da Escola de Formação de Professores Magistério Kimamuenho, nas Mabubas, província do Bengo, relatam um quotidiano marcado por barreiras persistentes que colocam em causa a efectiva implementação da inclusão escolar em Angola.
Manuel Diogo, de 22 anos, estudante surdo do curso de Língua Portuguesa e Educação Moral e Cívica, descreve a sala de aula como um espaço onde aprender exige esforço redobrado e, muitas vezes, solitário.
“As aulas são complicadas para mim, porque não consigo acompanhar tudo o que o professor explica. Muitas vezes, fico perdido durante a aula, sem entender o conteúdo”, revela Manuel Diogo, que aponta a alegada falta de domínio da língua gestual por parte dos professores como a principal barreira à aprendizagem, na medida em que compromete a interacção pedagógica e o esclarecimento de dúvidas.
“É muito difícil falar com os professores, porque eles não sabem língua gestual. Às vezes, saio da aula sem entender nada.”
Manuel Diogo, mais do que dificuldades académicas, relata experiências de isolamento dentro da sala de aula: “Há momentos em que parece que estou sozinho, mesmo estando rodeado de pessoas. Isso dói, porque a escola devia ser um lugar para todos.”
Apesar de a Política Nacional de Educação Especial Orientada para a Inclusão Escolar, aprovada pelo Decreto Presidencial n.º 187/17, consagrar o direito de acesso, participação e permanência dos alunos com deficiência no sistema de ensino, a realidade vivida por estes estudantes revela uma divergência entre o quadro legal e a prática pedagógica. O referido diploma estabelece como prioridade a eliminação de barreiras no ensino, através da formação de professores, da disponibilização de meios adaptados e da criação de condições adequadas. Entretanto, no terreno, as declarações de Jorge Cassule Miguel, de 26 anos, estudante surdo da especialidade de Pré-Escolar, apontam para uma realidade marcada pela falta de adaptação das aulas e de recursos pedagógicos específicos.
“As aulas não são adaptadas para nós. Muitas vezes, não conseguimos entender o que está a ser ensinado.”
A escassez de materiais apropriados agrava as dificuldades enfrentadas. “Não temos livros nem recursos próprios para estudantes surdos. Isso obriga-nos a fazer muito mais esforço.”
Jorge Miguel aponta ainda para um sentimento recorrente de invisibilidade no ambiente escolar: “Há momentos em que parece que não somos vistos da mesma forma que os outros alunos”, reclama o estudante que, ainda assim, mantém firme o propósito de contribuir para a educação inclusiva no futuro. “Quero mostrar que uma pessoa com deficiência também pode contribuir para a sociedade.”
Pedro Manuel Dende, de 30 anos, estudante da especialidade de Geo-História e com deficiência visual, queixa-se de limitações no acesso a materiais em braille e da preparação dos docentes. Tendo frequentado o ciclo anterior numa escola especial, Pedro enfrenta dificuldades ao integrar-se no ensino médio numa instituição comum, onde o domínio do braille por parte dos professores é praticamente inexistente.
“Os professores não dominam o braille, e não há materiais específicos. Isso dificulta muito, principalmente na escrita e na pesquisa.”
Para Pedro Dende, o acesso aos poucos materiais de que a escola dispõe representa outro entrave :“Cada folha de braille custa cerca de 200 kwanzas e, numa aula, posso usar mais de cinco folhas.”
A falta de adaptação de conteúdos visuais, como mapas e imagens, limita o acesso pleno ao conhecimento. “Os professores explicam, mas não têm como traduzir isso para o braille.”
Apesar das dificuldades, Pedro reconhece avanços na política de inclusão, ainda que considere haver insuficiências na sua aplicação prática.
“A inclusão de estudantes com necessidades especiais nas escolas normais foi uma decisão acertada, mas faltam muitos mecanismos para funcionar.”
Confrontado pelo RECURSO com as reclamações dos estudantes, o director da Escola de Formação de Professores Magistério Kimamuenho lembrou que a instituição tem dado os primeiros passos relativamente à inclusão de alunos com necessidades especiais, classificando o processo como um “grande desafio”, sobretudo no que toca a alunos com deficiência visual e auditiva.
Arlindo João Paulo é, todavia, directo ao assumir parte das críticas: “Confirma-se a inexperiência da nossa parte, da comunidade docente, que tem a ver com o desconhecimento da língua gestual e do braille, para atender, na sua plenitude, os alunos com essas especificidades.”

De acordo com o director, para lidar com esta situação, a instituição tem estabelecido contactos com as escolas de origem dos estudantes, promovendo parcerias que, em alguns casos, culminam em trocas de experiências.
“As escolas enviam para nós especialistas para facilitar a acessibilidade comunicativa por parte desses alunos”, explica, apontando, no entanto, outro problema: “Não temos recursos suficientes para manter, em tempo integral, estes especialistas; por um lado, e, por outro, também eles têm uma carga horária a cumprir nas suas instituições de origem.”
Reconhecendo que este exercício “não é suficiente, mas tem servido para remediar”, Arlindo João Paulo adianta planos para uma solução mais efectiva no futuro: “Queremos que a nossa própria instituição tenha intérpretes e professores que dominem a língua gestual, para facilitar a comunicação com estes alunos. Por isso, na nossa bolsa de formação, estamos a prever a inclusão da língua gestual, para que alguns docentes adquiram domínio desta ferramenta e, assim, melhorar a comunicação.”






