Fuga de quadros esvazia Moxico e trava desenvolvimento, alerta pesquisador

A província do Moxico está a perder capital humano em ritmo acelerado, e as consequências já se reflectem nos serviços públicos, na capacidade produtiva e no debate sobre políticas públicas. O alerta é do pesquisador Bendito Muhusso, mestre em Política Económica e Desenvolvimento pela UAN e doutorando em Políticas Públicas no ISCTE, em Lisboa.

Em entrevista ao RECURSO, o pesquisador revela que educação e saúde são os sectores mais afectados pela contínua fuga de profissionais qualificados da província, para quem esta situação tem constituído um “entrave ao desenvolvimento local”, sobretudo numa altura em que o corredor do Lobito colocou o território no “radar de investidores nacionais, estrangeiros e de organizações como a União Europeia e o BDA”. 

Muhusso identificou três principais formas de fugas dos quadros, nomeadamente a transferência administrativa de funcionários públicos para outras províncias, para onde almejam obter melhores condições de vida, sobretudo educação e saúde para os filhos, a emigração de jovens qualificados para mercados de trabalho mais competitivos e, por fim, a saída para dar continuidade à formação superior. 

Bendito Muhusso | Foto: DR

O também coordenador do Observatório de Políticas de Emprego Jovem e Mercado de Trabalho do Centro de Investigação Sol Nascente apontou os dados do Gabinete de Recursos Humanos do Governo Provincial do Moxico, segundo os quais 277 funcionários foram transferidos para outras províncias entre 2021 e 2025. 70% deste número saiu do sector da educação, 17% da saúde e 13% do regime geral da administração pública.

“Para uma província com taxa de alfabetização de 62,3%, 15.º lugar no censo 2024, a saída expressiva de profissionais da educação pode agravar o défice de capital humano”, afirma Muhusso, que exerce ainda função de investigador do Instituto Superior Politécnico Walinga do Moxico. 

Muhusso defende que a “fuga de quadros” no Moxico é hoje um dos principais entraves ao desenvolvimento local, sobretudo num contexto em que o Corredor do Lobito coloca a província no radar de investidores nacionais, estrangeiros e organismos como a União Europeia e o BDA. 

Salários, infra-estruturas e desvalorização local são as principais causas

O pesquisador identifica cinco causas estruturais para o problema: a primeira é a baixa diversificação económica e a ausência de médias e grandes empresas no território, o que limita as oportunidades de emprego qualificado. A segunda são os baixos salários no sector privado, dominado por micros e pequenas empresas. A terceira, adiantou, é a insuficiência de serviços sociais, tendo exemplificado a carência de habitação, saúde especializada, educação de qualidade e oferta cultural. A quarta é o custo de vida elevado, agravado pela distância logística entre o Moxico e Luanda, que encarece bens e matérias-primas. A quinta é a desvalorização dos quadros locais, manifestada na concessão desigual de direitos e benefícios e na diferença de honorários pagos a profissionais locais em comparação aos trazidos da capital para eventos oficiais.

“Observa-se também a centralização do desenvolvimento em Luanda, Benguela, Huíla e Huambo, o que atrai profissionais de todo o país, incluindo do Moxico”, destacou.

A falta de oferta de cursos de pós-graduação e de espaços de investigação aprofunda o problema, segundo Muhusso. “Quem termina a licenciatura no Moxico e quer fazer mestrado ou doutoramento vê-se obrigado a sair. Na maioria das vezes, não regressa”, realçou.

Impactos na gestão, na economia e no ensino

Para Muhusso, os impactos são directos. A fragilidade institucional aumenta porque faltam quadros capazes de planeareme executarem políticas públicas. 

“A desigualdade regional cresce em relação a províncias mais desenvolvidas. A produtividade e a inovação caem, dificultando a criação e modernização de empresas. E o investimento privado retrai-se diante da escassez de mão de obra qualificada”, explicou.

Na educação, saíram 193 profissionais entre 2021 e 2025, o que compromete a ministração das aulas e a gestão escolar. Na saúde, a falta de médicos, enfermeiros e técnicos reduz a capacidade de atendimento. Na administração pública, enfraquece-se a resposta às demandas da população.

“A longo prazo, a província pode enfrentar problemas de produção, crescimento económico sustentável e deterioração dos serviços públicos”, alertou.

Para além de Luanda, principal destino dos quadros por oferecer mais oportunidades e exigir menor custo de adaptação do que o exterior, países como Namíbia, África do Sul e Portugal têm sido as outras opções. 

Estratégia de retenção de quadros

Muhusso destacou que as soluções para reter os quadros na província já estão descritas no Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027, que passa pela reabilitação de infra-estruturas rodoviárias e de apoio à produção, habitação para jovens, expansão do capital humano, modernização da administração pública e melhoria dos serviços de educação e saúde. “As intenções estão no papel. É preciso executar”, vincou. 

Para o pesquisador, o Governo Provincial desempenha um papel central na gestão do território e das políticas públicas. 

“As instituições de ensino superior já formam e produzem conhecimento. Já as empresas dependem do consumo das famílias, investimento público, ambiente de negócios e administração eficiente, variáveis que passam pelo Estado”, enfatizou.

Para os jovens que pensam em sair do Moxico, Muhusso deixa um recado em tom equilibrado: “Compreendo o espírito patriótico e o sentimento de pertença pelo Moxico, mas os jovens têm sonhos. Se a província não oferece condições para realizá-los, é natural procurar noutros lugares. Ser patriota não significa sacrificar esses sonhos”.

Para os que permanecem, apela para que “contribuam com conhecimento e inovação”. Mesmo aqueles que estão longe, “continuem a contribuir com ideias, ciência e projectos para a comunidade local”.

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