O engraxador de sapatos que virou linguista

Onélio SantiagoNota 10Fevereiro 15, 2026

Foi deslocado de guerra. Viveu na rua e, ainda adolescente, teve de vender sacos de plástico para ter o que comer. Às portas de concluir um mestrado em Língua e Literaturas, Bento Laurindo revive com o RECURSO os dias dolorosos em que esteve “no inferno a correr”.

De casa para o trabalho, Bento Laurindo faz por estes dias o mesmo percurso de há 12 anos, mas executa tarefas que em nada se assemelham. Até 2014, então com 28 anos, de segunda a sexta, pontualmente às 05h00, o jovem natural de Benguela deixava o bairro Rocha Pinto, periferia de Luanda, para estar uma hora depois na Rua Salvador Allende, no Maculusso, centro urbano da capital angolana, onde engraxava sapatos e vendia jornais. Hoje, aos 40 anos, continua a ‘madrugar’ para chegar cedo à rua que homenageia um antigo presidente chileno, mas fá-lo já nas vestes de secretário da Faculdade de Humanidades da maior e mais antiga instituição de ensino superior de Angola, a Universidade Agostinho Neto. Nestas funções, não toca em pomadas, escovas ou trapos de ‘dar brilho’ a calçados. Bento Laurindo está colocado no departamento de apoio à direcção da faculdade. Por ele passam todos os documentos que entram e saem da instituição. É sua tarefa rever-lhes a coesão e coerência textuais. Mas também tem como obrigação produzir protocolos, redigir actas e, não poucas vezes, servir de ‘ponte’ entre estudantes e o gabinete do decano.

Em linhas gerais, assim se poderia resumir uma apressada síntese biográfica das quatro décadas de vida de Bento Laurindo. Contudo, para uma pessoa que viveu na rua e foi deslocada de guerra, a pressa é algo que inevitavelmente se aprende a substituir pela paciência. Paciência para manter viva a esperança.

Quarto filho de uma casa com seis rebentos, Bento Laurindo nasceu no município do Balombo, província de Benguela, região bastante afectada pela guerra civil que fustigou o País por 26 anos. Por isso, em 1999, com apenas 13 anos, Bento Laurindo deu por si perdido “numa zona de alto risco”, sem comida, descalço e sem nenhum adulto a acompanhá-lo. “Aquilo era um inferno. Eu corria, corria, mas não sabia se corria para ir aonde”, recorda, salientando a “grande sorte” de ter encontrado, ao acaso, uma caravana das Forças Armadas Angolanas (FAA).

Os militares saíam do Balombo para Luanda e Bento, que sempre ouvira “boas histórias” sobre a alegada facilidade da vida na capital, não pensou duas vezes. Aproveitou a boleia para a ‘Luanda dos sonhos’, mas, a meio do percurso, houve um incidente trágico: a caravana em que seguia foi atacada. Teve ferimentos “graves” no pé esquerdo.

“Foi um grande susto. Eram tiros intensos a vir de todos os cantos. Saltei do camião, mas não conseguia andar. Estava a sangrar muito”, contou o jovem numa entrevista concedida ao jornal Nova Gazeta em 2014. 

Alguns efectivos das FAA ajudaram-no a apanhar uma ambulância. Ficou seis meses num hospital do município do Lobito que acredita que se chamava ‘Compão’. Antes mesmo de ter alta, um tio que vivia no Lobito foi buscá-lo no hospital. Permaneceu na casa do tio até meados de 2000, mas, como sempre andou movido pelo grande sonho de chegar a Luanda, decidiu pedir dinheiro a um amigo do pai, mas sem especificar o que faria com os valores.

Era duro, mas eu sabia que se tratava apenas de uma fase da minha vida.

Com 1.500 kwanzas, quantia que hoje equivale a pouco mais de um dólar, Bento apanhou o barco que o levaria até Kikombu, província do Kwanza-Sul, onde ficou por duas semanas. Era já assumidamente um deslocado de guerra. Dormia na praia junto com um ‘fuzileiro’ de que já não se lembra o nome, mas cuja boa ação ainda recorda: o militar pagou-lhe a passagem para Luanda.

Do sonho de Luanda à aventura no ensino superior 

Chegou a Luanda em finais de 2000. O ‘Morro dos Bois’, no extinto mercado do Roque Santeiro, foi a primeira morada. “O fuzileiro tinha muitos familiares que até nos arranjaram uma casota de chapa”, explica Bento Laurindo, que, ainda adolescente, sobrevivia graças à venda ambulante de sacos plásticos. Naquele mesmo ano, encontrou um primo que o convidou a viverem juntos no bairro da Petrangol. Mas o primo era casado e vivia com mais um parente que não teria gostado da chegada de Bento. “O gesto do meu primo era bom, mas a minha presença causou-lhe muitos problemas. Chegaram a ponto de brigar por minha causa”, lembra.

Saiu da casa do primo e passou a dormir nas barracas do Roque Santeiro. “Era duro, mas eu sabia que se tratava apenas de uma fase da minha vida”, assegura, relatando que, em 2001, juntamente com outros conterrâneos benguelenses, viria a mudar-se para outro bairro da periferia de Luanda, associado a um mercado, o Catinton.

Ano vai, ano vem, Bento Laurindo aliou a venda de sacos à actividade de engraxador. Passou a ‘facturar’ 300 a 500 kwanzas por dia (menos de 0,5 dólares ao câmbio actual) e, como tinha saído de Benguela já com a 6.ª classe concluída, decidiu volta a estudar em 2007. A escola era o ‘Mutu Ya Kevela’, onde fez a 7.ª, 8.ª e 9.ª classes. Para a compra de livros e de outros materiais didácticos, vendia jornais e engraxava sapatos na Rua Salvador Allende, em frente ao Puniv Central de Luanda, no Maculusso, onde também concluiu o ensino médio em Ciências Humanas, em 2013.

 

No ano seguinte, inscreveu-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) de Luanda. A razão para escolha deste organismo não poderia ser mais óbvia: aquele instituto público funcionava exactamente na ‘Salvador Allende’. Bento planeava, assim, engraxar sapatos de manhã e, à noite, frequentar a licenciatura em Ensino da História. Entretanto, antes mesmo dos exames de admissão, o ISCED foi transferido para a Centralidade do Kilamba, que dista a 30 quilómetros do centro urbano de Luanda. Desanimado, Bento ponderou desistir do sonho de se tornar técnico superior, mas ainda foi a tempo de fazer o exame de admissão, tendo obtido a nota mínima exigida para entrada.

Conciliar o trabalho de engraxador e vendedor de jornais com as aulas na universidade era praticamente uma missão impossível. O trânsito caótico da capital angolana, a falta de transportes públicos e as dificuldades para pagar os então 15 mil kwanzas mensais de propinas no ensino superior público levaram Bento Laurindo a desistir do ISCED-Luanda no final do mesmo ano em que fora admitido, 2014.

Em 2015, tendo se apercebido que as antigas instalações do ISCED-Luanda, na Rua Salvador Allende, acolhiam a então Faculdade de Letras [hoje Humanidades] da Universidade Agostinho Neto, Bento concorreu a uma vaga no período diurno (em que não se paga propinas) e foi admitido no curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa. Um ano depois, tornou-se funcionário da reprografia da faculdade onde se estava a formar, abandonando a actividade de engraxador de sapatos. Da reprografia passou para a biblioteca e de lá para a secretaria da faculdade. Pelo meio, concluiu, em 2019, a licenciatura com a classificação “muito bom”, tendo obtido a nota final de 18 valores. Influência da Língua Umbundo no Português Falado em Benguela — O Caso do Município do Balombo:  Aspectos Léxico-Sintácticos foi o título da monografia, uma pesquisa a que deu continuidade na mesma instituição onde estuda e trabalha, devendo, ainda este ano, apresentar novos resultados desta investigação na sua dissertação de mestrado.

Autor

Leave a Reply

Siga-nos
Regista Pesquisa
Mais Lidas
Loading

Entrando 3 segundos...

Discover more from Recurso

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading