Investigador critica em livro «desvios» na Educação: «A prova sempre prova, mas prova o quê?»

Manuel Afonso lança amanhã livro em que critica “modelo industrial” para o qual foram “desviadas” as metas da Educação. Professor e investigador angolano antecipa para o RECURSO o conteúdo da obra, numa conversa que o próprio classifica como “grande provocação”, apesar de ser ele quem diz frases polémicas como esta: “Reprovar um educando, em qualquer nível, deveria ser considerado um pecado mortal no ensino, na avaliação e na aprendizagem”.

O investigador e professor angolano Manuel Afonso lança amanhã, em Luanda, um livro no qual critica o modo como a avaliação e a educação “se desviaram das suas metas” e seguem um modelo “industrial”, no qual a preocupação recai sobre a qualidade dos produtos e não sobre os desafios que os processos apresentam.

Manuel Afonso defende a necessidade de a avaliação e a educação serem entendidas como “processos humanos bastante complexos e dinâmicos”, exigindo uma gestão “sempre na lógica da pedagogia do erro”.

Em entrevista ao RECURSO, numa espécie de pré-apresentação e discussão do livro, que será lançado às 14h00 de amanhã, na Universidade Gregório Semedo, o docente critica o carácter “redutor” da prova por alegadamente apresentar apenas duas saídas possíveis: a obtenção de uma nota positiva, ainda que mínima, que concede o direito de transitar de classe; ou a obtenção de uma nota negativa, ainda que próxima da média, que inabilita o aluno a transitar.

“Desde muito cedo, nunca nos revimos nessa forma supostamente adequada de avaliar as aprendizagens em construção, razão pela qual a obra sustenta a necessidade de uma avaliação concebida como processo e ao serviço da aprendizagem integral”, explica.

Citando autores como David Ausubel, Lev Vygotsky e Jean Piaget, Manuel Afonso realça que que uma aprendizagem “integral” pressupõe as dimensões cognitiva, psicomotora, socioafectiva e psicolinguística. Por isso, sublinha o professor, as críticas apresentadas no livro “não se limitam ao sistema educacional angolano”, mas estendem-se ao modelo de educação formal vigente pelo mundo, que o docente caracteriza como “metafórico” por dissociar a educação da instrução e a afectividade do conhecimento.

A obra, intitulada A prova sempre prova, mas prova o quê?»: As realidades negligenciadas, será comercializa ao preço de 14 mil kwanzas e está constituída por cinco capítulos. No primeiro, o autor aborda a perspectiva histórica da educação e da avaliação escolar, ao passo que o segundo capítulo é reservado para discutir o que “efectivamente” significa prova no contexto escolar. O terceiro e quarto capítulos falam, respectivamente, das realidades negligenciadas em torno da prova e dos percursos da avaliação ao serviço da aprendizagem integral. O quinto e último capítulo, intitulado O diálogo continua, é uma espécie de repto para que a comunidade académica não pare de discutir as questões levantadas pelo docente.

Chumbar ou não chumbar? Eis a questão

Desafiado pelo RECURSO a justificar por que razão é adepto da corrente que classifica a reprovação na primária como “um acto de agressão” ao aluno, Manuel Afonso foi mais longe ao afirmar que “reprovar um educando, vulgo aluno, em qualquer nível de ensino, deveria ser considerado um pecado mortal”. O professor entende que “notas positivas ou negativas representam apenas notas e raramente reflectem o que sabemos ou não sabemos”.

“Vejamos o seguinte exemplo: todos nós que estudamos em Angola até à 12.ª classe tivemos uma das línguas estrangeiras, francês ou inglês. Se terminámos essa classe, pressupõe-se que aprendemos a ler, falar e escrever nessas línguas”, ironiza o investigador, antes de enfatizar que a realidade “desmente” esse pressuposto, o que o leva a deixar no ar a seguinte pergunta: “Qual é então a diferença, em termos de aprendizagem, entre os que reprovaram e os que aprovaram?”

Sustentando que o exemplo acima ilustra que reprovar ou aprovar com base em notas obtidas em prova contribui para a legitimação de “equívocos sociais” e faz nascer o que chama de “analfabetos funcionais”, Manuel Afonso recomenda mudanças nas práticas de ensino, avaliação e aprendizagem e sugere que se trabalhem novos currículos que atendam a todos os tipos de saberes, pois, ressalva, “mesmo na vida, eles dialogam; só não dialogam na escola formal”.

Sobre o que deve então fazer um docente quando um aluno não apresentar condições (notas) para aprovar, Manuel Afonso declara que a atitude profissional de um professor comprometido com a aprendizagem deveria assentar, antes de tudo, na “problematização das dificuldades dos seus alunos”. Segundo o investigador, mais do que constatar o insucesso, importa compreender as suas causas.

“Tal exige a realização de um diagnóstico situacional rigoroso que permita identificar os factores que interferem na aprendizagem — frequentemente localizados na interface entre ensino e aprendizagem, mediada pelos processos avaliativos”, reforça o professor, que considera que concentrar a avaliação em momentos finais, como as provas de fim de ano lectivo, é um procedimento “inadequado e desalinhado com as propostas emergentes de renovação educativa, como defende a UNESCO”.

Tendo sido, entre 2018 e 2020, director-geral do Instituto Nacional de Avaliação e de Desenvolvimento da Educação (INADE, ex- INIDE), organismo do Estado com missão de promover e coordenar estudos relativos à Avaliação do Sistema de Educação e Ensino, Gestão Curricular, execução da Política Educativa, inovação e garantia da qualidade, incluindo a produção de instrumentos didáctico-pedagógicos e a equivalência e homologação de estudos, Manuel Afonso foi desafiado pelo RECURSO a explicar até que ponto está à vontade para fazer críticas a um ‘sistema’ de que já fez parte.

Com algum humor, o docente revelou que a pergunta era “uma grande provocação, mas muito bem-vinda”, daí que, além de livros e estudos que lançou em co-autoria e a título individual, Manuel Afonso citou como ganhos do seu ‘reinado’ no INADE a implementação do PAC – Programa de Adequação Curricular, que permitiu envolver os cidadãos por meio de uma mostra representativa e recolheu as suas expectativas sociais, num estudo denominado INACUA – Inquérito Nacional para Adequação Curricular em Angola.

“Também realizámos dois Jangos de Saberes no domínio do Currículo, todos em torno da mudança de práticas, com participação de actores internacionais. Toda essa produção está registada e publicada em livros”, concluiu o professor.

De 60 anos, Manuel Afonso é investigador principal jubilado do Instituto Nacional de Avaliação e de Desenvolvimento da Educação (INADE). Licenciou-se em Ciências da Educação, na especialidade de Química, em Cuba, e doutorou-se em Ciências Químicas na Rússia. Iniciou a carreira de docente em 1984 e exerceu diversas funções de relevo na gestão da política educativa angolana, destacando-se as de decano do Instituto Superior Politécnico da Universidade Katyavala Bwila e director-geral do INADE. Actualmente, exerce o cargo de vice-reitor para a Área Académica e Apoio ao Estudante da Universidade Gregório Semedo.

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