As férias escolares e o ideal da educação permanente nas cidades educativas

Férias das crianças e jovens. Os discursos da realidade são animados com os já habituais memes, também manifestos de preocupação dos pais e encarregados de educação, e os atalhos ocupacionais.

Sobre os memes, essa população ganha o atributo de moedores pela capacidade de esvaziarem as reservas de alimentos disponíveis em casa, os tira-sossego dos pais e vizinhos, os estraga-agenda dos pais trabalhadores que precisam encontrar alternativas para a guarda dos filhos e das filhas, também pela  imagem de serem os causadores do caos no trânsito na cidade.

No campo da preocupação, os pais e os encarregados da educação sentem a necessidade de ocuparem os supostos tempos livres das crianças e jovens. No seu imaginário, e reproduzindo a máxima popular “cabeça desocupada é oficina do diabo”, os pais acreditam que ocupar as crianças e jovens com outras actividades, não importa quais, é a possibilidade de as manterem simplesmente atarefadas. Isso mesmo, vale a ocupação.

Essas ocupações são as que chamo de atalhos ocupacionais. No ideal, as actividades são sempre a possibilidade de o humano histórico realizar-se na sua relação com a natureza, e as realidades historicamente construídas. Neste olhar, por mais insignificante que possa parecer, as actividades desenvolvidas pelos humanos são sempre a possibilidade de educar este. O dispêndio de energia humana deve tender sempre para um resultado e/ou produto. Quando as actividades ocupacionais servirem para preencherem os supostos tempos livres como motivação primeira e única da razão da sua realização, este atalho é desperdício pernicioso no ideal da educação das pessoas.

 Como pai e encarregado de educação, como muitos outros na nossa realidade, estou no desafio de pensar nas próximas ocupações para os meus educandos. Neste processo, dei-me a pensar no como é que viemos parar nesta mordaça sobre os sentidos da gestão da lida com a educação dos nossos filhos.

 Como o título mostra, na releitura de Paulo Freire, encontrei o debate sobre as cidades educativas e a educação permanente. E, no segmento da educação permanente, os escritos sobre educação em realidades africanas antes da absorção do modelo redutor do norte da educação como escolarização, encontra-se o debate sobre a educação como uma actividade permanente realizada nos diferentes processos e relações sociais.

O  primeiro desafio é justamente este. Em Angola, a realidade formal reguladora das interacções sociais incorporou e pratica-o como princípio de fé indissolúvel, a escolarização como sentido único da educação. Não é simples coincidência o apelo de se incorporarem no currículo da educação escolar formal todas as questões que revelaram a incompetência dos adultos na gestão dos processos produtivos e das relações entre humanos, animais e a natureza como um todo. Este modo de pensar a educação não realiza o sentido permanente da educação. Ignora o facto de as múltiplas actividades em que as pessoas estejam engajadas constituírem-se sempre em prática educativa como prática social.

É esta fé na escolarização que rechaça as múltiplas formas de realização da educação disponível nas cidades, compreendida aqui como espaço das interacções sociais. É também esta fé que transforma os outros contextos educacionais como “actividades extra-escolares”, logo atalhos ocupacionais para as crianças e jovens.

Nas férias, a sociedade, no seu imaginário redutor, suspende a educação. Adultos, jovens e crianças pensam no seu senso comum que, ao decidirem integrar  os planos de férias, para os que os podem pagar, ou deixar as crianças entregues aos jogos electrónicos, plataformas de filmes e series, aos múltiplos canais de televisão e, em último caso, aos treinos das brincadeiras de rua, a educação não se realiza. Com isso, é subaproveitado um sistema de valores e princípios para compreender e valorizar a empreitada humano-histórica presente nestas produções imateriais das sociedades. Essa suspensão no pensamento da educação nestes momentos ignora o tesouro disponível nas sociedades para a educação das crianças e jovens.

Olhamos igualmente para as nossas cidades como espaços que alavancam a educação permanente. As cidades tendem a desenvolver a  inteligência de nelas se viverem.  Como mundo dos seus habitantes, as cidades proporcionam artefactos materiais e imateriais que possibilitam as pessoas interpretarem rotinas, atenderem necessidades, interpretarem o seu mundo e produzirem para o bem-estar comum.

Como espaços políticos e ideológicos, no ideal das crianças, as nossas cidades não se abrem para elas por se terem tornado extremamente perigosas para as mesmas. Não é somente a criminalidade, mas também a ditadura dos adultos manifestada nos equipamentos urbanos disponíveis, nas condições de mobilidade e pela extorsão económica – ou pagas ou não acedes a determinados serviços, ou não realizam determinados prazeres via momentos de lazer.

Como esfera pública educativa, as nossas cidades são praticamente desprovidas de equipamentos sociais, instituições e programas públicos para garantir a educação permanente das crianças, dos jovens e também dos adultos. A ausência destes espaços, educativos pela sua natureza e função social, é um dos sentidos da negação pública da educação permanente.

Por exemplo, uma das actividades aliada da educação permanente é a leitura, nos livros. A leitura é realizada pelas cidades e pelas pessoas. As cidades desenvolvem políticas de produção e circulação do livro na correlação com a realidade sócio-económica das pessoas. É também responsabilidade das cidades criarem equipamentos como espaços de leituras, e prover profissionais para a devida orientação dos leitores. Tomada no senso comum como actividade de lazer, a leitura orientada de um livro não suspende a educação da pessoa ao garantir actividades como a relação com a língua e linguagens trazidas pelo livro, a possibilidade de interação em grupos de leitura ou simples conversas informais sobre as leituras, e também o desenvolvimento de projecto comunitários no campo das artes. É a cidade que proporciona estes bens materiais para a educação permanente das pessoas.

Pensamos que a preocupação deve deslocar-se das férias para as cidades que nós edificamos. As nossas cidades são resultados do nosso pensar e do nosso agir. O que elas nos devolvem é tão somente o  produto da nossa empreitada como comunidades e como actores com as nossas preferências políticas, éticas, estéticas, ecológicas; e utopias. A maka não são as férias!

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