
Estudantes de Jornalismo e Comunicação terão apoio no pagamento de propinas. Ajudas virão das receitas decorrentes da venda da biografia de histórico jornalista angolano. Promotoras do projecto assumem não ter milhões, mas planeiam ajudar também quem esteja a frequentar estágio em jornais e TVs.
Uma boa nova para quem estuda Jornalismo e Comunicação. Há um livro cujos resultados da venda se reverterão no apoio para propinas a estudantes dos ensinos médio e superior. Mas como beneficiar destes auxílios? Ou ainda, quem dará estas ajudas?
Bem, talvez se devesse primeiro dizer de que livro se trata. Ora, falamos de Ocirema, biografia do jornalista angolano Américo Gonçalves. O título, um anagrama, é o nome ‘Américo’ lido ao contrário. A obra é toda ela ideia de Aline Gonçalves, viúva do histórico jornalista, mas foi escrita por Olga Leite, consultora de comunicação.
As duas senhoras explicaram para o RECURSO o porquê da doação dos resultados da venda e até mesmo que valores esperam arrecadar, mas estes são dados para ler um pouco mais abaixo, porque, tendo respondido à questão sobre quem daria os apoios referidos no arranque deste relato, falta ainda dizer como os estudantes de Jornalismo e/ou Comunicação poderão beneficiar dele.
No essencial, para o início do projecto, Aline Gonçalves e Olga Leite contam com a ‘assessoria’ de José Luís Mendonça, professor no curso de Comunicação Social da Universidade Agostinho Neto, e Teixeira Cândido, professor no curso de Jornalismo no Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL). A estas duas figuras masculinas, as duas senhoras deram a missão de, nas suas respectivas instituições, estarem atentos a casos de estudantes que estejam em situação de carência económica.
“Mas a ideia é que as pessoas [os estudantes dos cursos abrangidos pelo projecto] também nos procurem e nos informem sobre as suas dificuldades”, explica Olga Leite, antes de especificar a natureza do auxílio a ser dado: “Não vamos apoiar directamente o aluno, ou seja, o dinheiro não vai ser entregue ao aluno, mas, sim, à instituição de ensino ou formação.”
Por exemplo, prossegue Olga Leite, um aluno que queira fazer um curso no Centro de Formação de Jornalistas (CEFOJOR) terá o curso “pago na íntegra”. Para o caso de propinas, os valores serão pagos por trimestre. “E vamos acompanhar o percurso do aluno. Se tiver bom aproveitamento, vamos continuar a pagar as propinas”, diz Olga Leite, referindo que órgãos como Jornal de Angola ou RTP África já receberam a comunicação de que, se tiverem algum estagiário que precise de frequentar alguma formação específica ligada ao Jornalismo, poderiam fazer chegar os pedidos.
“Não vamos pedir documentos para candidaturas nem envolver grandes burocracias. Vamos ser práticos: falar com o aluno e perceber o contexto em que vive e as dificuldades por que passa”, esclarece Olga Leite, sublinhando que o projecto “não tem milhões”, mas pretende dar continuidade ao trabalho que Américo Gonçalves fez em vida. “Ele próprio foi pagando propinas de alguns estudantes de Jornalismo e deu a mão a muitos jovens. Dava sempre a mão a jovens que quisessem entrar para profissão. Fez isso no Jornal de Angola, Angolense e no A Capital.”
Com o preço de venda fixado em 35 mil kwanzas, numa edição de 500 exemplares, excluindo eventuais custos com impostos e taxas para com as livrarias, a venda do livro resultaria na arrecadação de mais de 17 milhões de kwanzas. A estes valores poderiam ser acrescidos outros 500 mil kwanzas, porque, além do livro, está disponível uma pen drive com textos de Américo Gonçalves que não foram incluídos no livro por razões de espaço.
A obra é descrita pela autora como “uma narrativa com escrita jornalística, baseada numa pesquisa aturada de textos, entrevistas e documentos”. Disponível nas principais livrarias de Luanda, o livro, explica Olga Leite, “não está organizado por ordem cronológica, mas por ordem de importância na caracterização de quem foi Américo Gonçalves”.

Um dos maiores nomes da história do jornalismo angolano, Américo Gonçalves, que completaria 76 anos em Março último se estivesse em vida, foi quadro do Jornal de Angola, onde dirigiu o suplemento Vida e Cultura, actual Jornal Cultura. Fundou os jornais Angolense e A Capital e trabalhou igualmente no Correio da Semana e nas revistas Austral e O Golo. O jornalista, que faleceu em 2014, teve também passagem pela LAC e Rádio Nacional de Angola, órgãos para os quais produziu conteúdos para os programas culturais Afrikhya e Reencontrar África, respectivamente.
Organizações como a Brigada Jovem de Literatura e o movimento Ohandanji tiveram Américo Gonçalves, que foi também adido cultural da ELF Aquitaine Angola (actual Total Energies), como um dos seus principais divulgadores. Toda esta trajectória rendeu a Américo Gonçalves o estatuto de “pai do jornalismo cultural angolano”, um reconhecimento consolidado com o Prémio Maboque de Jornalismo (2010), um diploma de mérito pelo Ministério da Cultura (2019) e a condecoração, na classe Paz e Desenvolvimento, pelo Presidente da República, nas celebrações dos 50 anos de Independência de Angola (2025).
Ao RECURSO, Aline Gonçalves, viúva de Américo Gonçalves, recorda o jornalista como “um grande homem de cultura, uma pessoa muito humana, com uma trajectória de bastante respeito”.
Desafiada a ‘adivinhar’ que opinião teria o marido sobre a qualidade do jornalismo que se faz actualmente em Angola, Aline Gonçalves é cautelosa: “Acredito que as coisas possam ter fugido um pouco daquilo que ele pensava. Lembro-me de uma entrevista que ele concedeu perto do fim da vida dele, no Semanário Angolense, em que ele dizia que o futuro do jornalismo em Angola seria brilhante. Mas não sei se hoje ele diria a mesma coisa. Não sei…”






