1- A presença dos estudantes e licenciados em Letras no debate público angolano é, salvo raras excepções, reduzida, tímida e pouco influente. O espaço público angolano – sobretudo nas televisões, rádios, jornais, universidades e plataformas digitais – é ocupado esmagadoramente por juristas, seguido de politólogos e sociólogos. Os estudantes de Letras, apesar de lidarem directamente com a linguagem, a interpretação, o discurso e os sistemas simbólicos da sociedade, aparecem frequentemente afastados das grandes discussões nacionais sobre política, cultura, religião, identidade, educação e cidadania.
Este fenómeno não pode ser explicado apenas por factores individuais, como desinteresse ou ausência de vocação interventiva. Trata-se igualmente de uma consequência estrutural da própria formação universitária oferecida pelos cursos de Letras em Angola. O problema, portanto, é curricular, epistemológico e filosófico.
Os cursos de Letras em Angola continuam, em muitos casos, presos a modelos pedagógicos excessivamente historicistas, filológicos e descontextualizados das exigências contemporâneas do pensamento crítico. A disciplina no plano curricular é Filosofia, mas ensina-se História da Filosofia e, frequentemente, apenas como sucessão cronológica de autores, escolas e conceitos, sem estabelecer pontes entre a Filosofia e a interpretação literária, política ou cultural.
Num contexto em que o discurso político, religioso e mediático molda profundamente a consciência colectiva, formar estudantes incapazes de interpretar criticamente os mecanismos da linguagem significa limitar drasticamente a sua participação cidadã e intelectual.
Os estudantes aprendem quem foram Platão, Aristóteles, Kant ou Hegel, mas raramente são ensinados a utilizar a Filosofia como instrumento de leitura crítica da linguagem social. A Filosofia surge como memória académica e não como prática hermenêutica. Em vez de Filosofia da Literatura ou Filosofia da Linguagem, fundamentais para um curso de Letras, oferece-se uma abordagem fechada em conteúdos que pouco contribuem para a intervenção intelectual.
A própria Filosofia da Linguagem aparece, muitas vezes, reduzida a uma simples unidade dentro da disciplina de Introdução aos Estudos Linguísticos, o que revela uma grave inadequação curricular. Ora, num contexto em que o discurso político, religioso e mediático molda profundamente a consciência colectiva, formar estudantes incapazes de interpretar criticamente os mecanismos da linguagem significa limitar drasticamente a sua participação cidadã e intelectual.
Sabe-se que os currículos não são neutros. Eles determinam o tipo de intelectual que uma sociedade produz. Por isso, Michel Foucault (1996, p. 44) adverte que “cada sistema de educação é uma maneira política de manter ou modificar a apropriação dos discursos.” Um curso de Letras que privilegia a memorização histórica em detrimento da análise crítica da linguagem acaba por formar especialistas do passado, mas não intérpretes activos do presente.
Outro problema central reside no modo como disciplinas como Literatura Angolana e outras literaturas nacionais são ensinadas. Em muitos casos, prevalece uma perspectiva filológica e historicista: datas, escolas literárias, biografias, periodizações e contextualizações históricas ocupam o centro do processo formativo.
Embora o conhecimento histórico seja importante, o excesso de retrospectiva impede a actualização interpretativa das obras. A literatura deixa de ser instrumento de leitura do presente e transforma-se em objecto de museu.
Entretanto, uma obra do passado não pertence apenas ao passado. Ela pode revelar as continuidades históricas, os traumas persistentes, os mecanismos de poder que se repetem e as formas contemporâneas de exclusão social. Ler Agostinho Neto, Pepetela ou Luandino Vieira apenas como figuras históricas é empobrecer radicalmente a potência crítica das suas obras.
A literatura deveria funcionar como laboratório de interpretação da realidade contemporânea. Contudo, quando o ensino literário se limita à cronologia e à classificação estética, o estudante perde a capacidade de relacionar texto, sociedade, ideologia e discurso.
Edgar Morin (2003, p. 14) alerta precisamente contra esta fragmentação do saber, que “ impede frequentemente operar o vínculo entre as partes e a totalidade.”. De acordo com o autor, “o desenvolvimento da aptidão para contextualizar e globalizar os saberes torna-se um imperativo da educação” (Morin, 2003, p. 24). Em consequência disso, a ausência dessa contextualização reduz a formação literária a um exercício técnico e memorístico, afastando os estudantes da intervenção pública.
2- A Filosofia da Linguagem deveria ocupar um lugar central na formação dos estudantes de Letras. Não apenas como teoria semântica ou reflexão abstracta sobre signos, mas como instrumento de leitura crítica da sociedade.
Os discursos políticos, religiosos e sociais operam através da linguagem. O poder constrói-se linguisticamente. As ideologias circulam em palavras, metáforas, slogans, narrativas e enquadramentos discursivos. Sem instrumentos filosóficos de interpretação da linguagem, o estudante de Letras torna-se incapaz de desmontar criticamente os discursos que organizam a vida colectiva.
A Filosofia da Linguagem permitiria aos estudantes compreender:
Neste sentido, o estudante de Letras deveria surgir naturalmente como intérprete crítico da sociedade. Porém, sem formação filosófica sólida voltada para o discurso contemporâneo, a sua intervenção pública torna-se limitada.
3-A Filosofia da Literatura poderia igualmente desempenhar um papel decisivo na formação intelectual dos estudantes de Letras. Ela permitiria compreender a literatura não apenas como arte estética, mas como forma de pensamento, produção de conhecimento e interpretação da condição humana.
A literatura problematiza o poder, o sofrimento, a violência, a memória, a identidade e a existência. Ela produz visões do mundo. Sem uma abordagem filosófica, o ensino literário tende a reduzir-se à descrição formal ou histórica.
Num país marcado por profundas tensões sociais, desigualdades, crises identitárias e disputas simbólicas, a literatura deveria funcionar como espaço privilegiado de reflexão crítica sobre Angola contemporânea.
Frantz Fanon (1968, p. 167) lembra-nos que “cada geração deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la.” A missão intelectual dos estudantes de Letras não pode resumir-se à reprodução passiva do saber académico. Ela implica interpretar criticamente o presente angolano e participar activamente na construção do debate público.
4- O pensamento de Edgar Morin oferece uma das bases teóricas mais importantes para repensar a formação em Letras. Morin critica precisamente os modelos educativos fragmentados e defende a necessidade de religar os conhecimentos. Para Morin (2003, p. 21), “mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem cheia.”
A universidade angolana continua, muitas vezes, preocupada em produzir “cabeças cheias”: estudantes carregados de informações históricas, conceitos decorados e classificações literárias, mas sem capacidade efectiva de problematização crítica.
Forma-se, assim, um intelectual literário excessivamente fechado à academia, pouco interventivo e distante das disputas sociais concretas, entrando na observação de Antonio Gramsci de que “todos os homens são intelectuais; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais.”
Morin propõe exactamente o contrário: uma educação voltada para a articulação dos saberes, para a complexidade e para a interpretação do mundo contemporâneo, pois, “vivemos uma época de incerteza onde o conhecimento deve enfrentar a complexidade.” (Morin, 2003, p. 63) e essa educação “deve favorecer a aptidão natural da mente para colocar e resolver problemas.” (Morin, 2000, p. 22)
A ausência dessa perspectiva complexa nos cursos de Letras compromete directamente a capacidade argumentativa dos estudantes no espaço público. O debate contemporâneo exige interpretação multidisciplinar: linguagem, política, cultura, Filosofia, sociologia, história e comunicação articulam-se constantemente. Sem religação dos saberes, o estudante permanece intelectualmente compartimentado.
5-A marginalização dos estudantes de Letras no debate público também pode ser interpretada à luz de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, para quem “a escola contribui para reproduzir a distribuição do capital cultural.” (Bourdieu & Passeron, 1992, p. 15).
Os cursos de Letras, ao não fornecerem instrumentos sólidos de intervenção crítica contemporânea, acabam por reproduzir uma hierarquia simbólica em que outras áreas – sobretudo Direito e, não com a mesma frequência, Ciência Política – monopolizam a autoridade discursiva no espaço público.
Forma-se, assim, um intelectual literário excessivamente fechado à academia, pouco interventivo e distante das disputas sociais concretas, entrando na observação de Antonio Gramsci de que “todos os homens são intelectuais; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais.” (Gramsci, 1982, p. 7). O problema central talvez seja precisamente este: muitos estudantes de Letras possuem potencial intelectual, mas o modelo de formação impede-os de desempenhar plenamente a função social do intelectual.
Neste parágrafo, gostaria de convocar Edward Said para falar de “questões embaraçosas.” Não o fiz, porque pausar em certos momentos Também é Filosofia.
6-Em vista de tudo o que foi dito, podemos referir quea reduzida participação dos estudantes de Letras no debate público angolano não resulta apenas de factores individuais. Ela revela limites profundos do próprio modelo curricular adoptado pelas universidades.
Enquanto os cursos continuarem excessivamente historicistas, filológicos e fragmentados, formar-se-ão especialistas em memorização literária, mas não intérpretes críticos da sociedade contemporânea.
A introdução estruturante de disciplinas como Filosofia da Linguagem, Filosofia da Literatura e pensamento complexo poderia transformar radicalmente esta realidade. Tais disciplinas permitiriam desenvolver competências de análise discursiva, interpretação crítica, contextualização histórica e intervenção intelectual.
Num país que necessita urgentemente de pensamento crítico, os estudantes de Letras não deveriam ocupar uma posição periférica no debate público. Pelo contrário, deveriam surgir como leitores privilegiados dos discursos sociais, políticos, religiosos e culturais que moldam a Angola contemporânea.
Como lembra Morin: “É necessário ensinar a condição humana.” (Morin, 2000, p. 47). E talvez seja precisamente essa a grande missão contemporânea dos cursos de Letras: formar sujeitos capazes de interpretar criticamente a condição humana angolana no interior das suas múltiplas linguagens, contradições e complexidades.
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Obs.: Artigo do livro Também é Filosofia, no prelo.
Morin, E. (2003). A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Morin, E. (2001). Os Sete Saberes para a Educação do Futuro. Lisboa: Instituto Piaget.
Foucault, M. (1996). A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola.
Foucault, M. (1979). Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal.
Bourdieu, P., & Passeron, J.-C. (1992). A Reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
Fanon, F. (1968). Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.







Luísa Carvalho
Concordando com o pensamento que está na base do artigo, acrescentaria que para actualizar currículos e introduzir neles as mais recentes teorias (da linguagem, da literatura e da comunicação) necessário será dispor de um corpo docente capaz de as transmitir e problematizar com os alunos. Haverá, certamente, que dar tempo ao tempo, para que surjam novas gerações de docentes, investigadores e teorizadores. “Roma e Pavia não se fizeram num dia”. E há sinais evidentes de que essa geração já aí está. Só falta dar- lhe a oportunidade.