Biblioteca 10padronizada: Seis anos a fazer de uma pedonal um ‘centro cultural’ de acesso livre

Onélio SantiagoNota 10Janeiro 10, 2026

Em meio a restrições da Covid-19, dois activistas improvisaram debaixo de uma pedonal uma biblioteca. Seis anos depois, o que era apenas um local para troca de livros e incentivo à leitura está transformado num ‘centro cultural’ visitado por escritores premiados e professores de Oxford.

Setembro de 2020. Francisco Mapanda ‘Dago’ e Arante Kivuvu têm os seus pequenos biscates impactados pela Covid-19. Angola enfrenta o desafio de se habituar ao chamado “novo normal” e os dois jovens activistas encontram na venda de cigarros e pacotinhos de whisky uma alternativa. Fixam o ‘negócio’ na pedonal da Robaldina, no município de Viana, em Luanda. A estrutura, feita entre betão e metal, é bastante frequentada, porque permite atravessar com segurança uma das mais perigosas estradas da capital angolana, a Avenida Deolinda Rodrigues, vulgo ‘Estrada de Catete’. A afluência de clientes é boa de manhã, mas reduz durante a tarde e volta a registar subida ao início da noite. Dago e Arante aproveitam as baixas na clientela para ler, seguindo-se uma troca de ideias sobre o livro que cada um lê.   

Dago e Arante percebem, pouco tempo depois, que discutiam sobre coisas que já sabiam, pelo que era necessário partilhar os livros com mais pessoas. Então, ao invés de apenas um livro para cada um, passaram a levar para a pedonal algumas dezenas de obras. O material ficava exposto lado do pequeno negócio de cigarros whisky. Curiosas imagens de gente sentada em pneus e pedras a ler debaixo de uma pedonal viralizaram nas redes sociais. Um semanário angolano de referência fez chamada de capa com o projecto e a televisão estatal uma reportagem exibida no principal serviço de notícias. “Biblioteca 10padronizada”, assim se baptizou a iniciativa. E a pedonal da Robaldina deixou de ser o ponto em que os transeuntes aproveitavam para fazer necessidades maior e menor. O odor a urina e fezes foi substituído pelo perfume de livro novos e usados.

Sobre a escolha do nome, Biblioteca 10padronizada, Dago, 35 anos, justifica: “O número 1 representa o início e o 0 é potencial infinito. Quando se dá a fusão, resulta no 10, que não é apenas uma forma criativa de se referir a uma coisa fora do padrão, mas é o recurso a um número de extrema importância na numerologia”, diz o activista, acrescentando que “não se trata apenas de uma coisa debaixo de uma pedonal”.

“As pessoas da nossa comunidade dizem que, antes da ‘10padronizada’, tinham de ir até ao Largo 1.º de Maio para encontrar um lugar bonito para se fazer fotos”, conta Dago, sublinhando que a estrutura, além de promover hábitos de leitura, “é uma forma saudável de aproveitar os espaços públicos desvalorizados”.

Prémios, lançamentos e visitas

Em 2023, a Biblioteca 10padronizada esteve entre os finalistas do Prémio Personalidades NJ, uma iniciativa promovida por um dos principais jornais privados de Angola, o Novo Jornal. No mesmo ano, o Governo Provincial de Luanda atribuiu ao projecto o diploma de ‘Munícipe de Mérito’.

Mas o reconhecimento ao projecto não se ficou pelo lado institucional. Por exemplo, os escritores João Tala e Ondjaki escolheram a Biblioteca 10padroniada para o lançamento dos seus livros, respectivamente, Ventre Negro e O Livro do Deslembramento. Conhecidos rappers e activistas angolanos como MCK, Flagelo Urbano ou Lucássio também estiveram no local para dar autógrafos ou realizar pequenas actuações de acesso gratuito. 

Entre estrangeiros, destacam-se visitas como a de Elaine Mineiro, então vereadora da Câmara Municipal de São Paulo, Brasil, e de Tom Sternet, um reputado professor de Oxford. As duas figuras estiveram na ‘10padroniada’ no âmbito de uma roda de debates sobre racismo e colorismo. De debates, aliás, não é tudo. Ao abrir o ano de 2025, os professores angolanos Isaac Paxe, Anilda Chivukuvuku, Chocolate Brás e Miguel Divovo estiveram no local para conversar sobre os desafios do País ao longo dos 50 anos de independência.

Feiras, sessões de microfone aberto para declamação de poesia e exposições também constam entre as actividades da Biblioteca 10padronizada, além de sessões de leitura para crianças e aulas de xadrez.

Prejudicada pelas obras do CFL

Por estar situada perto de uma linha dos Caminhos de Ferro de Luanda (CFL), a Biblioteca 10padronizada vê-se muitas vezes obrigada a fechar devido às obras de reabilitação promovidas por aquele organismo. Dago diz compreender e respeitar a autonomia do CFL, mas critica o facto de a empresa proceder a estas mexidas “sem qualquer comunicação prévia”.

De acordo com o activista, a Biblioteca 10padronizada, nos seis anos de existência, “ajudou muitos jovens a sair da delinquência e ociosidade”, sendo, por isso, um projecto para o qual o Estado “deveria olhar como um aliado”.

“Nós não pretendemos impedir as obras. Apelamos apenas para que sejamos informados para podermos rever as actividades já agendadas e também retirar os materiais reciclados, como pneus, que usamos como assento”, refere Dago.

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